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Diário de Notícias - 7 de Maio de
2001
Crises
João César das Neves
Portugal está em crise. Não numa
crise económica, pois a produção continua a crescer a taxa razoável.
Não numa crise política, pois o Governo tem maioria no Parlamento. Não
numa crise social, pois a paz e a tranquilidade reinam no País. Mas,
apesar disso, numa grave crise. Ou, melhor, em duas graves crises, uma séria
e passageira, outra profunda e assustadora. A primeira crise, forte mas
superficial, é uma crise de liderança. O actual Governo tem-se esforçado
para se auto-ridicularizar a um ponto que desafia a capacidade humana.
Pode dizer-se que a sua actuação se transformou num autêntico
festival de disparate, incompetência e ignorância. Ministros lúcidos
são os que já saíram.
O senhor ministro das Finanças não
faz a menor ideia de como cortar a despesa pública, que, na sua opinião
e de instituições internacionais, é a causa do nosso grave desequilíbrio;
o que não admira, quando se põe a raposa a tomar conta das galinhas. A
senhora ministra da Saúde diz que o que se passa no seu sector é
"uma vergonha"; o que não admira, quando se põe a galinha a
tomar conta das raposas. O senhor ministro do Trabalho e da
Solidariedade decidiu capitalizar para a Segurança Social usando dívida
pública, como quem vende uma galinha em troca dos ovos dela. O senhor
ministro da Educação canta de galo, mas esconde a avaliação das
escolas, para não se verem os ovos podres. O senhor primeiro-ministro põe
a mão no peito e assume tudo, como se não mandasse na capoeira.
Relativamente a esta primeira crise, o melhor é não falar. O País
todo deve manter um silêncio envergonhado, esperando que o delírio
passe. E dar os sentidos pêsames aos bons socialistas, sem culpa do que
se faz em seu nome. As coisas desceram abaixo dos mínimos aceitáveis
para uma crítica construtiva. Deixou-se a fase em que era imperiosa a
denúncia, porque "quem cala, consente", e entrou-se na fase
em que se impõe o silêncio, porque "quem fala, vomita".
Agora o melhor é não comentar as decisões governamentais. Por
imperativos de pudor e higiene pessoal.
A segunda crise é muitíssimo mais
grave e profunda e, aliás, é causa da anterior. Trata-se de uma crise
de civilização em que todo o País está envolvido. Se o problema
fosse o Governo, a solução era fácil e rápida. Os problemas das
Finanças e da Segurança Social não nascem sobretudo da azelhice dos
ministros, mas da miríade de parasitas que vive explorando o fisco. Os
problemas dos sectores sociais não vêm, antes de mais, da tolice dos
ministérios, mas da corrupção institucionalizada de médicos,
professores, juízes, etc. É toda a sociedade e civilização nacionais
que estão doentes. E isto não se cura mudando o Governo. O Executivo não
passa do mau cheiro de uma podridão que o ultrapassa. As coisas
chegaram a um ponto tal que os nossos bispos, sempre tão discretos,
acabam de as denunciar com surpreendente veemência. "Na nossa
sociedade sente-se cada vez mais que as regras inspiradoras dos
comportamentos, as próprias leis e o sentido global da vida individual
e comunitária, deixaram de se inspirar em padrões éticos de valores,
num quadro cultural que defina um projecto e um ideal, na linha da nossa
tradição cultural, e decorrem ao sabor de critérios imediatistas e
pragmáticos" (Nota Pastoral da Conferência Episcopal "Crise
de Sociedade, Crise de Civilização", 26/04/2001, n.º 2). Os
senhores bispos falam de coisas evidentes para todos. Não é preciso
ser católico para compreender que hoje "inculca-se um exercício
da liberdade sem limites..., o fenómeno da corrupção tolda o valor da
liberdade económica; a crescente marginalização social, agravada com
o eclodir de manifestações de violência, gera insegurança..., surgem
sintomas de falta de confiança no sistema judicial,... a toxicodependência
e a delinquência juvenil alertam para uma crise da juventude cuja solução
é dificultada pela falta de apoio e protecção à família e pela ausência
de uma ousada e inovadora concepção da política de educação; a
globalização, acentuada com a mediatização da vida, fez surgir novos
poderes, fragilizando aqueles em que, tradicionalmente, assenta a
harmonia da sociedade; o poder político está fragmentado e
enfraquecido, há sintomas preocupantes de perda de confiança nas
instituições, há cada vez mais margem para a ilegalidade" (loc.
cit.).
Não foi fácil chegar aqui. Deu muito
trabalho a muita gente, durante muito tempo para criar uma crise tão
funda. Foram vários anos de consciente, atenta e laboriosa actuação
de velhas forças obscurantistas para atacar valores, destruir tradições,
manipular a cultura, chantagear instituições. Se juntarmos a isto que
o País, depois do enorme esforço para aderir à Europa e entrar na
moeda única, decidiu gozar os benefícios e acomodar-se numa cultura de
prazer, vaidade, ilusão e sucesso, vemos bem que como se construiu a
crise da civilização. Proclama-se uma ideologia de temas abstrusos e
politicamente correctos, mas segue-se uma filosofia de oportunismo fácil
e apatia morna, alimentada por subsídios e reivindicações. As suas
manifestações são a supina tolice ministerial, mas também os
indescritíveis concursos da televisão, as nojentas revistas da moda,
os arrogantes anúncios da publicidade, os obscenos debates
parlamentares, as incríveis declarações das corporações.
Projectam-se leis de morte, que impõem a desobediência civil. O único
projecto proposto é a construção de estádios de futebol! Vive-se a
desorientação geral. Faltam referências da nossa identidade, ideais
mobilizadores, projectos agregadores. Não sabemos quem somos nem o que
queremos. "É urgente repensar Portugal, aprofundando a convivência
democrática, acentuando, sem hesitações, aquelas linhas de força
culturais que garantam a unidade progressiva da nossa civilização,
marcada pela abertura à universalidade, pela convivência na
diversidade, pela afirmação, sem receios, da tradição humanista de
inspiração cristã" (loc. cit.).
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