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Ecclesia - 8 de Maio
A crise da Nota da "Crise"
João César das Neves
A recente Nota Pastoral da Conferência Episcopal, Crise de Sociedade, Crise de Civilização, recebeu muitos comentários na comunicação social. Realmente não admira que assim aconteça. O tema é importante e o texto é contundente. Seria mau era se ninguém desse por ele.
Mas noto, desde já, que houve uma ausência total de comentários ao tema real da Nota. Quase ninguém falou dos problemas da corrupção, da insegurança, da marginalização, da deliquência, etc, etc. Por isso, ao pedirem-me para comentar apenas as reacções à Nota, isso obriga-me a não poder sequer tocar no assunto da própria Nota. Aquelas falam de outras coisas.
Não é verdade, como muitos quiseram dizer, que este texto se segue a um longo silêncio dos nossos bispos levando assim a estranhar-se este pronunciamento. Realmente, os nossos bispos têm participado atentamente na vida nacional, dentro da execução da sua função. Inclusivamente publicam continuamente uma imensidade de oportunos textos sobre a situação do país, que a nossa comunicação decide sempre ignorar. Desta vez leram e admiraram-se. A culpa não é dos bispos !
Mas, realmente, esta Nota não é como as outras. A veemência verbal e a contundência das críticas não é habitual nas Notas do nosso episcopado. A situação do País justifica-o, como afirmam até os mesmos críticos noutros textos. Por isso se justifica tanta atenção e se produziram tantas críticas, que analisarei brevemente.
Passo em branco os comentários que se limitam a interpretar a Nota como uma mera intriguice política nas negociações recentes com o Governo. Também não vou referir aqueles que, simplesmente, se irritam por existirem bispos e por falarem, visto serem forças obscurantistas. Todos esses, obviamente, não estão a tratar do texto, mas sim da fábula que a sua imaginação fértil lhe quis juntar.
Há três tipos fundamentais de argumentos que têm sido usados. O primeiro afirma que os bispos não devem falar, porque os cristãos não pensam assim. Os prelados que tratem de ouvir o que o seu rebanho pensa.
Mas para que é que a gente quer bispos, se não para eles dizerem o que se deve fazer? Se os cristãos ouvem ou não, é um problema da consciência destes. A questão de consciência dos bispos é se eles falam ou não. Falaram e ouviu-se: óptimo, temos bispos! Coisa, aliás, que os cristãos e os portugueses atentos há muito tempo sabem bem.
Outro argumento afirma que os bispos não podem vir agora falar porque estiveram calados noutros tempos. E seguem-se as habituais acusações. Desta vez têm-nos poupado às clássicas Inquisição e Cruzadas, mas insistem no silêncio do pobre papa Pio XII perante o holocausto, o do episcopado português no salaza-rismo, etc.
Este argumento é tonto. Primeiro, os referidos comentadores ignoram alegremente a verdade histórica sobre os factos que aduzem. Hoje, a décadas de distância e sentados no sofá da sua superioridade, passam condenações sumárias sobre dilemas dramáticos vividos em tempos angustiosos e completamente diferentes. Mas mesmo que tenham razão nas suas condenações, a sua atitude é equivalente a rejeitar, sem ouvir, as opiniões de um nosso militar, só porque o exército português cometeu algumas atrocidades na guerra de África ou na batalha de S.Mamede.
Mas a mais frequente e estridente das críticas é outra. Afirma ela que os bispos até podem defender os valores que quiserem, mas não podem é ofender os valores dos outros. Ora, ao acusarem a situação actual de falta de valores esquecem os que a suportam. Alegadamente, o que existe agora não é falta de valores, mas outros valores.
Realmente, os nossos bispos sabem bem que se vivem actualmente outros valores. Chegam mesmo a dizer que vários momentos houve em que forças de influência, ideológica ou política, normalmente importadas, tentaram diminuir, ou mesmo anular, esta matriz cristã da nossa cultura. (nº3). Esta expressão, forças de influência importadas, fez as delícias dos comentadores. Mas ela mostra que os bispos admitem que há outros valores, só que são contra os valores cristãos.
Aqui toca, finalmente, o que mais revolta os críticos, aquilo a que, em última análise, se resumem os ataques todos: a existência de uma matriz cristã da nossa cultura. Isso, alegadamente, é uma arrogância intolerável por parte dos prelados, pois o que eles querem é voltar à religião de Estado e mandar para a prisão ou para a fogueira os que não concordam com eles.
Os medos e as acusações são obviamente ficção retórica. Mas há um ponto real: o que é a matriz da nossa cultura? Será que ela inclui os valores cristãos? Se entrarmos por estas questões faremos, certamente, as delícias dos perorantes profissionais, que mais não querem do que uma sumarenta questão abstrata para poderem exercitar os seus dotes polémicos. Mas o ponto não é de opinião, mas de facto. Por muito que lhes custe, qualquer observador imparcial dirá necessariamente que a cultura portuguesa, qualquer que ela seja ou se defina, é cristã até ao âmago. Que todos os nossos hábitos, critérios, instituições, aldeias, cidades, museus, livros e pinturas estão endemica-mente embebidos nesta doutrina, que veio importada da Galileia na pregação de S. Tiago Maior de Compostela, mas que é nossa desde que Portugal é Portugal. Por muito que custe a meia dúzia de intelectuais, cujos valores foram mal copiados de cartilhas estrangeiras. Isso não retira, obviamente, a nacionalidade ou o patriotismo aos não-cristãos, numa sociedade cristãmente tolerante. Mas também não são esses não-cristãos que retiram realidade à matriz cristã portuguesa.
Outro ponto de facto é que admitir o aborto é admitir matar um inocente, mesmo que tal seja justificado por outros valores. É a isso que se chama uma cultura de morte. Perante leis destas, a desobediência civil é a única resposta digna. Os nossos bispos têm razão.
João César das Neves
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