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Expresso - 19 de Maio
Ainda não se viu nada
Terça-feira, «O Bar da TV», na SIC, ganhou ao «Big Brother» da TVI. É um conceito de novela da vida real polémico e arrepiante. Se o francês «Loft Story» gera protestos violentos, por cá não se sabe onde vamos parar
Gamma/ADS
HÁ UM lampejo de tormento nas caras dos concorrentes de «Unfiltered» («Sem Filtro»), um concurso televisivo americano destinado a premiar o fumador compulsivo que deixe de levar o cigarro à boca de uma vez por todas. Numa das provas, os inscritos são colocados perante uma mesa de autópsias tendo na frente travessas metálicas tapadas a pano azul-turquesa. Sob os tecidos escondem-se pulmões retirados a cadáveres de vítimas de cancro provocado pelo consumo do tabaco. O choque adivinha-se. Perante isto, «O Bar da TV», na SIC, bem podia ser uma produção da Disney. Dezoito meses depois da estreia de «Big Brother», na Holanda, fica claro que no reino da «novela da vida real» Portugal ainda não viu nada, nem sabe da missa a metade.
Na França, 17º país do mundo a difundir o «Big Brother» («BB»), o verniz estalou com «Loft Story», no M6 (emitido em Portugal via TV Cabo). É em tudo igual ao original, menos os protestos, inusitadamente violentos, que levaram até a alterações nos regulamentos do programa.
Imaginação sem limites
DAVID NELSON / AP
O rol de concursos é imenso. O Brasil, por exemplo, fez «No Limite», ideia retirada do «Survivor» da CBS (que a TVI vai passar antes de «A Ilha da Tentação», com Teresa Guilherme). Doze pessoas, divididas em duas equipas, vivem provações físicas e psicológicas numa ilha deserta, numa espécie de caça ao tesouro, alimentadas por rações diárias de 250 calorias. Alguns comem vermes para compensar o apetite. Vale tudo menos tirar olhos, tudo por conta de um prémio de 30 mil contos. A Holanda não recebeu de braços abertos a segunda fatia de «BB», mas achou graça a «Bus», que os espanhóis também adoptaram. Dez concorrentes são enfiados dentro de um autocarro, espécie de casa-prisão com rodas, e percorrem o país. Quando não são recebidos em apoteose, os espectadores atiram ovos e fruta podre aos vidros do veículo.
As televisões americanas, habituadas a «talk shows» dignos da Endemol, como o «Jerry Springer Show», odiaram o «BB». Foi um fracasso de audiências e, por isso, caso único no mundo. Preferem concursos como o «Sem Filtro», o tal onde se deixa de fumar à força, ou «Os Gordos», que utiliza idênticos sistemas para provocar uma dieta compulsiva. Domingo, dia 27, a Alemanha tenta a mesma sorte com a estreia de «Big Diet». No RTL, o «BB» vai na terceira fase mas os «shares» foram por água abaixo.
«A Ilha da Tentação», que se anuncia como o trunfo da TVI para a nova temporada, vem da Fox de Rupert Murdoch. O original foi gravado em Belize e consta de quatro casais apaixonados deixados à solta num lugar supostamente paradisíaco. Correria tudo no melhor dos mundos não fossem 24 homens e mulheres, bonitos e musculados, fadados a estragar-lhes os casamentos...
Os ingleses não parecem mais subtis. Inventaram «The Mole», (ou «A Toupeira») que se resume a descobrir num concurso qual dos concorrentes anda a sabotar o próprio concurso e experimentaram outro quase tão caricato a que chamaram «Touching the Truck» («Tocando o Camião») que consiste em ter 26 pessoas com uma parte do corpo colada a um veículo pesado. O último a largá-lo da mão... ganha o camião. Portugal pode vir a escolher outros programas da chamada «carteira de férias».
Os suecos propõem «Villa Medusa», onde oito jovens são convidados a passar uma temporada de descanso num palacete de sonho e são roubados à entrada, levando os assaltantes todo o seu dinheiro e os cartões de crédito. «Hotel Getaway» vai pelo mesmo caminho: os concorrentes pensam ir fazer o «BB» em tempo de férias e dão de caras com um grupo de actores que lhes fazem a vida negra.
Para quem tenha interesse por concursos do género «Quem Quer ser Milionário?», o britânico «The Weakest Link» («O Elo Mais Fraco») mal se recomenda. Fazem-se perguntas em estúdio e perde o que se mostrar mais estúpido, literalmente. Os que ficam podem humilhar o vencido da forma mais violenta possível.
Invenção japonesa
Não há projecto para trazer a Portugal o japonês «Denpa Shonen». Rezam os livros que foi o programa pioneiro de toda esta euforia. Estreou em 1998, tinha um único concorrente, câmaras de filmar e ligação «on- -line». O homem, de nome Nasubi (que quer dizer beringela), passou 100 dias fechado num quarto e tinha por único bem uma pilha de revistas. Era obrigado a candidatar-se aos concursos publicitados nas páginas das ditas revistas e a viver apenas disso. Só comeu dez dias depois da estreia quando ganhou um jarro de geleia. Ainda arrecadou cinco quilos de arroz de uma só vez, mas andava sempre nu porque os cupões só lhe traziam em sorte «lingerie» feminina.
Bem mais provável é vermos «O Fugitivo», projecto co-produzido pelos actores Matt Damon e Ben Affleck, onde um grupo de pessoas tem de percorrer o país durante um mês enquanto a nação os apresenta nos «media» como se fossem o criminoso nº1. Ganha quem apresentar os comprovativos da viagem e, que nem um fugitivo a sério, nunca for apanhado.
Em Portugal, a novela da vida real ainda é uma mina de ouro. O pior, certo e sabido, ainda está para vir.
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