Desligar a televisão?
Henrique Monteiro
Intervindo no recente debate suscitado por programas como «O Bar da
TV», da SIC, e «Big Brother», da TVI, muitos comentadores opinaram
que a forma mais simples de combater o fenómeno dos «reality shows»
seria... desligar a televisão. Colunistas de jornais, pessoas que deram
as suas opiniões em inquéritos ou através da Internet, sustentaram
que o caso é simples: quem não quer não vê e o assunto fica
resolvido.
Do meu ponto de vista, não fica. Por uma simples razão: tendo em
conta que se contesta este tipo de programas por eles provocarem um dano
(seja o da invasão da privacidade, seja o do aproveitamento da boa-fé,
etc.) não é pelo facto de desligarmos a TV que esse dano deixa de
existir. Na verdade, essa é uma posição que pode ser considerada
totalmente subjectivista e que poderia ser resumida assim: o dano, (ou o
crime) de que não tome conhecimento, não existe. Digamos que é o
cúmulo do egocentrismo pensar nestes termos: não me interessam os
problemas que são criados aos outros (à sociedade), mas apenas aqueles
que dizem respeito a mim próprio ou, quando muito, à minha família.
Naturalmente, a extensão do dano causado, depende da audiência do
programa, razão pela qual, quanto menor for o número de pessoas a ver,
menos efeitos perversos provoca. Mas o simples facto de uma norma ética
ser quebrada por quem tem a responsabilidade de uma emissão televisiva,
deve levar a sociedade a actuar, denunciando esse facto.
E há inúmeras formas de actuar, exigindo que sejam as próprias
televisões a criarem os seus próprios mecanismo de contenção, ou
exigindo do Estado - que forneceu as licenças de emissão - que crie
essas regras e actue sem receios.