Jornal de Notícias - 12 de Maio

Toque a rebate 

M. Pinto Teixeira (*) 

1 - Com maior ou menor insistência, o clero português tem vindo a utilizar a recente Carta Pastoral dos Bispos, aprovada em Fátima, para exortar os católicos a unirem-se na defesa dos valores cristãos que mais caracterizam a cultura e tradição portuguesas. Utilizando as celebrações dominicais, e outras iniciativas pastorais, os padres estão a responder ao apelo dos seus prelados, denunciando os riscos que certas leis representam, por concorrerem para a ruptura do nosso tecido social.
Num violento texto de nove páginas, a Conferência Episcopal Portuguesa arrasa a classe política, nomeadamente quando afirma que "dirigir um país não pode ser só administrar crises, tem de assentar num projecto de valores a promover e a defender". Condenando o ziguezaguear da governação socialista, particularmente neste segundo mandato, os prelados referem-se a legislação diversa recentemente aprovada, mas, sobretudo, aos normativos sobre as uniões de facto, a pílula do dia seguinte, e as "salas de chuto". 

Para os bispos portugueses, tal legislação, que contou com o apoio ou a iniciativa do Governo e do PS, alimenta as "intenções de alguns grupos de provocar rupturas fracturantes, em relação à tradicional cultura portuguesa, ou mesmo em relação à influência da doutrina da Igreja na sociedade". Implacáveis na análise da vida social, política e governativa que o país atravessa, os bispos tocaram com o dedo nas principais feridas do Portugal de hoje, e deixaram um solene aviso ao poder rosa: os cristãos não podem nem devem pactuar com este estado de coisas!

2 - Esta denúncia da Conferência Episcopal tem absoluta razão de ser, e só peca por tardia. Teria sido bem mais proveitoso para os portugueses que a voz dos prelados se tivesse feito ouvir antes de aprovadas aquelas leis. Porque se assim fosse, de duas uma: ou o Governo arrepiava caminho e procurava outras soluções alternativas para o mesmo tipo de problemas, ou seguia em frente e ninguém poderia queixar-se de desconhecer o sentimento de uma grossa franja da sociedade portuguesa.

E não colhe o argumento dos que tentam retirar aos bispos a legitimidade para intervirem em questões desta natureza. Quando estão em causa valores que fazem parte da nossa matriz cultural de séculos, e que constituem matéria essencial do pensamento católico, há toda a autoridade e até mesmo a obrigação de consciência! para uma intervenção pública como a que foi feita. Ou não têm os portugueses, que se revêem nos princípios doutrinários da Igreja, todo o direito de fazer ouvir a sua voz e sentimento através dos seus legítimos representantes?

Os sinos tocam a rebate, e vão-se ouvir por muito mais tempo. Certamente com custos políticos relevantes. É que, por incrível que pareça, esta legislação surge quando temos um Primeiro-Ministro que não esconde o seu catolicismo. Também aqui se pode dizer que "santos da casa não fazem milagres"! E por este caminho, se os portugueses cruzarem os braços, não tardará estaremos a enfileirar ao lado dos países mais permissivos do mundo! Tudo e sempre em nome de uma certa ideia de modernidade política...

(*) Jornalista, escreve no JN, quinzenalmente, ao sábado
 

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