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Jornal de Notícias - 24 de Maio
Pura hipocrisia
Francisco José Viegas (*)
Grasna-se por aí bastante, hoje em dia, contra a televisão. O povo,
os políticos e os mandarins da televisão (que
podem mais do que o povo e os políticos) descobriram uma "ideia
nova" para compor as frases: chama-se "regulação". A
ideia é, agora, a de "regular a televisão" chamando a essa
nobre função ou o Estado, sempre ele!, ou os operadores de televisão;
ou, finalmente, um conselho superiormente formado que trataria de
discernir sobre o que o povo deveria, ou não, ver.
Porquê tudo isto? Porque a televisão, em desespero, mostrou as
chagas em todo o seu abjecto esplendor durante uma emissão da SIC.
Diante dessa novidade, intelectuais e políticos do governo ou da
oposição, colunistas e moralistas, descobriram que "a televisão
podia fazer aquilo". Notável descoberta. O País inteiro vergou-se
à descoberta e o Parlamento deixou por instantes de falar da reforma do
sistema de Saúde e dos valores da inflação, para se dedicar ao tema
da "invasão da privacidade", da violação da intimidade, do
abjecto que o "Bar da TV" propicia. O Parlamento
escandalizou-se, ergueu o dedo indicador pedindo moral e prometendo
leis, semicerrou os olhos cheio de pudor, meneou a cabeça lamentando o
estado das coisas e dos costumes. A Alta Autoridade para a Comunicação
Social também titubeou e avançou, parece, com participações, quer
contra a SIC, quer contra a TVI, porque a AACS é justa e tanto se
indigna com sexo a horas decentes como com violação da privacidade a
horas familiares. Mas só agora descobriu o assunto.
Desde que o dr. Mário Soares, em bom tempo, reconheceu existir o
direito à indignação, que o País público se indigna com mais
frequência e com mais à vontade. Isso faz bem ao País, evidentemente,
sendo apenas de condenar o facto de essa indignação ter lugar sempre
depois do tempo e constituir um fogo-fátuo. Porque o problema do
"Bar da TV" não é o "Bar da TV" tudo já estava
lá, talvez mesmo antes de Ediberto Lima ter tomado entre mãos a
produção do programa. Os moralistas da televisão podem agora
manifestar a sua indignação, enrubescer e baixar os olhos como uma
virgem pudica mas a verdade é que as coisas já estavam escritas e
continuarão por este caminho, como continuaram depois de outras
ameaças não à liberdade, mas à dignidade do que quer que seja. Os
cavalheiros do Parlamento podem protestar na Assembleia mas resistirão,
agora que se aproximam as eleições autárquicas e que as legislativas
antecipadas prometem luta acesa e lugar nos ecrãs? Não resistirão.
Não manterão o seu protesto.
Esta hipocrisia revela, também ela, um certo grau de abjecção. Se
bem que a indignação possa ser real, a atitude não é fiável porque
devemos sempre desconfiar das reacções de indignação tão repentina
em relação a factos que já não são de ontem nem de anteontem. Ou,
pelo menos, devemos duvidar da sua sinceridade. O Parlamento, que nunca
se indignara antes contra as manigâncias da manipulação informativa,
da manipulação das consciências em programas aparentemente mais
inocentes, escolheu agora a altura. Podia contar-se alguns deputados que
se indignam contra a falta de aquecimento nas escolas do ensino básico
do Inverno do interior e que fizessem discursos inflamados
sobre a matéria; que se indignassem contra os hospitais onde se morre
de indigência e contra o escândalo das construções dos novos
estádios de futebol não, o Parlamento agora aprecia a televisão. Não
deveria ter já feito isso há mais tempo?
Não deveria ter, há mais tempo, manifestado preocupações honestas
sobre a qualidade da programação, os objectivos da televisão, as leis
da concorrência, o desrespeito às regras mais elementares neste
capítulo? Já.
Mas o Parlamento não se atreveria a falar das televisões privadas:
os partidos têm-lhes medo, porque se lembram de casos. Lembram-se de
como isso pode afectar-lhes a vidinha.
Por outro lado, a falta de uma televisão pública razoável, culta,
atenta, bonita e exigente deve-se, fundamentalmente, ao facto de a
"classe educada" portuguesa ter abdicado de si mesma e ter
abdicado de pensar e de ser exigente. Baixou o nível de exigências nas
escolas, aceita sem pestanejar as idiossincrasias de uns cavalheiros que
se permitiram gastar milhares de contos para elaborar um dicionário da
Academia que rejeita valores e tesouros da nossa língua para passar a
ser um saco onde cabe todo o linguajar, desinteressa-se dos resultados
do ensino da Matemática e do Português, tornou-se vulgar e medíocre,
acha que Bach é uma excrescência inútil, que não vale a pena ler
Cesário ou Camilo às criancinhas, deixou de pensar e de fazer
"coisas belas".
A culpa do "Bar da TV" não é do dr. Rangel é da
mediocridade da classe dirigente que se instalou nas universidades e nos
jornais, no Governo e no Parlamento, nas academias e no "star-system"
e bajula a boçalidade, a indigência e a facilidade com que se é gente
distinta sem fazer nada.
Os jornalistas portugueses descobriram agora Harold Bloom (já daqui
vejo chamarem-lhe reaccionário e ainda não chegou a vez de Steiner,
por exemplo...). O que ele diz numa magnífica entrevista de Ana Marques
Gastão publicada ontem no "Diário de Notícias" tem todo o
sentido: trata-se de lutar por um mundo diferente, sem "ceder aos
media, ao visual, ao gosto das massas, a um mundo onde impera o rock".
Sem ceder à televisão dos boçais.
Diante disto tudo, diante da cedência que a "classe
educada" permitiu e manteve durante anos, o Big Brother é
simplesmente inocente. Mas alguém, no Parlamento, leu Bloom, por
exemplo e tirou as suas conclusões? Alguém prestou atenção às
objecções de Vasco Graça Moura sobre o novo dicionário da Academia?
Alguém se lembrou de criar uma autoridade que vigiasse ao menos os
erros ortográficos das legendas televisivas? Alguém se preocupou com o
facto de as universidades, nas suas áreas de letras e humanidades,
quererem ensinar bd, rock, cinema, feminismo, vídeo-clips, substituindo
os clássicos, o prazer da leitura, o valor da arte tal como as escolas
básicas e secundárias diminuem o peso da literatura em favor da
"linguagem oral" e da literatura "popular" ou de
massas? Então, calem-se.
(*) Francisco José Viegas escreve no JN, semanalmente, às
quintas-feiras
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