Jornal de Notícias - 9 de Maio de 2001

Famílias numerosas pagam factura de futuras reformas

Associação reivindica abonos com base no rendimento per capita

ALFREDO MAIA

A Associação das Famílias Numerosas (AFN) recebeu bem a notícia da alteração do segundo escalão do subsídio familiar, mas propõe mais passos para proteger «esse pilar fundamental» da sociedade e conferir abonos mais justos.

A medida anunciada pelo ministro do Emprego e Solidariedade «é uma excelente notícia, porque vai beneficiar muitas famílias que estavam a ser penalizadas por este sistema, cujo escalão médio englobava situações completamente diferentes», disse ao «Jornal de Notícias» o presidente da Direcção da AFN, Fernando Castro.

Além da necessidade de aumentar os valores («Em Portugal, é necessário ter 28 filhos para beneficiar de um abono semelhante ao da Alemanha para quatro descendentes, embora a Alemanha não tenha um nível de vida sete vezes superior ao nosso», observa), a associação reclama um novo passo.

O novo passo deverá consistir em determinar o rendimento per capita, para efeito da atribuição do chamado abono de família e não o rendimento do agregado, defende. «É diferente ter um rendimento de 500 contos com um ou dois filhos e ter um rendimento semelhante com dez filhos», explica.

As famílias com mais de três filhos constituem apenas 7% dos agregados portugueses, mas representam 26% das crianças e dos jovens do país, ou seja, 26% do seu futuro, argumenta Fernando Castro, para considerar que é uma obrigação do país ajudá-las.

Rejeitando qualquer propósito egoísta das famílias numerosas, aquele dirigente observa que as actuais crianças e jovens serão os contribuintes que, dentro de duas décadas, estarão a pagar, com os seus descontos para a Segurança Social, as pensões de reforma de inúmeros casais que hoje se recusam ter filhos.

«Apesar de a natalidade estar a diminuir e de nos arriscarmos a ter as reformas na falência dentro de 20 anos, o Estado continua a penalizar fiscalmente o crescimento e as próprias famílias», diz. As pessoas casadas têm menores deduções fiscais e os casais com filhos beneficiam igualmente de menores deduções do que as aplicadas às famílias monoparentais, sublinha.

Mudança de equipa atrasa ideia

A transferência do ministro Ferro Rodrigues e de parte da sua antiga equipa no Emprego e Solidariedade para a tutela do Equipamento Social pode ter atrasado o estudo e o desenvolvimento das propostas da Associação das Famílias Numerosas (AFN).

Quinze dias antes do desastre da ponte de Entre os Rios, que determinou a mudança de pasta do governante, a AFN chegou a realizar, no Ministério, uma «reunião útil e simpática», mas a remodelação governamental precipitada pela tragédia suspendeu a implementação de um grupo de trabalho.

Agora, a nova esperança da AFN é a entrada em funções da Comissão Nacional da Família, que realizou, na sexta-feira passada, a primeira reunião, e à qual a associação pretende levar as suas propostas.

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