Público - 17 de Maio

EDITORIAL 
A Abjecção Absoluta
 
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES

O Bar da TV foi, na sua primeira edição, um fracasso de audiências. Na segunda, apesar da aposta na alarvidade mais boçal e degradante, também não esteve famoso. Mas na terça-feira - o dia mais forte do rival Big Brother - saiu-lhe a sorte grande. Sob a forma do mais vil espectáculo que, até aos dias de hoje, alguma vez uma televisão portuguesa mostrou. 

Incomodado - envergonhado - com o que, na véspera, tinha visto fazer a sua filha, um casal de Borba rumou a Lisboa para lhe pedir que saísse do programa. Chegou de manhã. Durante horas a fio não pôde falar com a filha (nem nas prisões isso sucede) e, quando finalmente chegou o prime time, a produção proporcionou o encontro - e filmou tudo. Em directo. Tudo foi a conversa íntima, difícil, sofrida, de uns pais com a sua filha. (tão verdadeira e potencialmente ridícula como tantas conversas entre pais e filhos - haverá coisa mais ridícula do que palavras que envolvem amor, como já escreveu Pessoa?) Durante mais de uma hora a filha esteve a chorar para as câmaras. Ao mesmo tempo estas revelavam os desabafos dos pais, que viviam um momento de ruptura dramático, e talvez irremediável. E a produção, hipocritamente, ia dizendo que estava a viver um momento muito difícil, como se todos não percebessemos que estava a viver um momento de glória, comprovado pelos números das audiências (se o momento fosse sinceramente difícil, bastava desligar o directo). 

Quando o Big Brother chegou e quando foi seguido pelos Acorrentados, houve quem prognosticasse que a televisão portuguesa só conseguiria ir de mal a pior, e que haveria sempre algo pior, mais baixo, mais abjecto, para inventar e transmitir. Terça-feira tivémos a confirmação desta negra profecia. Porque ao lado das conversas alarves dos concorrentes do Big Brother, dos "strip-tease" dos Acorrentados, do vibrador da primeira emissão do Bar da TV, a transmissão de terça-feira representou novo salto qualitativo em direcção ao zero absoluto. 

Até terça-feira todas as barreiras do mau-gosto tinham sido quebradas, mas ainda assim os actores eram adultos livres que tinham escolhido estar ali. A sua intimidade estava a ser violada, mas essa era a sua escolha. Só que essa não foi a escolha dos pais desesperados que vieram de Borba a Lisboa para resgatar a sua filha. 

Não é preciso invocar qualquer critério de moralidade ou ter qualquer opinião sobre os sentimentos daquela mãe e daquele pai para nos indignamos com o que passou: basta lembrar um princípio básico da convivência democrática que é o de que a nossa liberdade termina onde começa a liberdade de outrém. O que a SIC fez foi violar a liberdade de uns pais falarem com a sua filha em algum recato, algo que nem a PIDE fazia na prisão de Peniche. 

Estamos por isso chegados a um momento em que talvez já não baste protestar e mostrar indignação. Em que já não são apenas padrões morais e de civilização que são desprezados, mas direitos humanos individuais que são violados. 

Karl Popper, o filósofo da sociedade aberta, num texto famoso que escreveu sobre televisão pouco antes de morrer, defendeu de forma muito polémica a instituição de algumas formas de controlo público da programação televisiva para assim impedir um mal maior, a destruição da própria democracia. Até terça-feira sempre me recusei a encarar essa hipótese. Desde então acho que tal debate tem de ser reaberto com carácter de urgência. O país não pode continuar a encolher os ombros com a sorte dos "parolos" de Borba - ou a fazer pouco deles -, como noutros tempos outras sociedades não se incomodavam quando certas minorias marginais eram perseguidas e presas. Um dia também vai bater à nossa porta - já está a bater à nossa porta. 

Acabou-se pois o tempo de encolhermos os ombros, de sorrirmos alheados, de olharmos para o lado fingindo não ver, de gritarmos apenas a nossa indignação. Alguma coisa mais substancial tem de ser feita para que, depois do que sucedeu terça à noite, o ainda pior não suceda ao pior. 
 

[anterior]