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Público - 19 de Maio
Os Novos Gladiadores Televisivos
Por GUSTAVO CARDOSO
A televisão chegou há já bastante tempo a nossas casas e tudo parece indicar que por lá continuará, ou como objecto decorativo, ou como meio de comunicação. Os "reality shows" como o Big Brother ou o Bar da TV são aparentemente a imagem de marca das televisões do princípio do milénio. Mas em Portugal, e em outros países, esta temática já há muito que é debatida nas suas diversas variantes - basta lembrar filmes como o "Truman Show" ou a "Kika" de Almodovar. Aquilo que verdadeiramente nos perturba é o facto de agora o podermos presenciar nas nossas próprias televisões, em casa, e perceber que afinal, critiquemos ou não, sempre acabamos por lá passar no "zapping" incessante a que a televisão actual nos impele.
Porque vemos então estes programas? A questão debate-se de forma acesa sempre que um novo "reality show" surge ou quando as equipas produtoras decidem explorar uma nova dimensão da expressividade corporal ou emotiva.
Desde há algum tempo que me interrogo sobre o porquê do sucesso do Big Brother e programas afins e se isso será motivo suficiente de preocupação ou escrita. Julgo que aparentemente o é - mas não pelos motivos mais vezes referidos. À visão dos alarmistas, que, nestes programas, encontram sinais do fim da "privacidade" ou do desmoronar de uma qualquer forma de "cultura televisiva", pode-se argumentar que o Big Brother ou Bar da TV mais não são do que a versão adaptada à realidade dos "mass media" e novos "media" de uma actividade social tão antiga quanto a própria vida em sociedade: o coscuvilhar da vida alheia. O que estes programas nos dão é a possibilidade de muitos coscuvilharem a vida de uns poucos - os que habitam o programa. Por isso, quanto ao conteúdo, nada de novo trazem.
O coscuvilhar na sua forma tradicional, das aldeias e o dos prédios dos bairros citadinos, era desenvolvido sem que as vítimas estivessem presentes, sendo, aliás, esse um dos maiores prazeres associado a esse acto. Quando a vítima tomava consciência de que era um alvo de conversa, o próprio coscuvilhar perdia o interesse, pois o motivo tornava-se público.
O que a televisão, depois da imprensa escrita, reformulou foi o acto de coscuvilhar. Agora é a própria vítima que coscuvilha sobre si própria. Mas o que faz este coscuvilhar televisivo verdadeiramente poderoso é que incorpora em si uma outra lógica, já muito vezes experimentada - a do espectáculo de gladiadores. Umberto Eco dizia que o papel do concorrente televisivo se aproxima do dos gladiadores da Roma antiga, morto para delírio dos espectadores.
A multidão não defende o concorrente televisivo dos possíveis danos à sua vida futura. Pelo contrário, encoraja a sua permanência nos ecrãs. E aí se constata que, glorificado na sua aparição televisiva, o concorrente se torna num modelo universal. Se ele se expõe, qualquer um o pode fazer. A exibição do concorrente convence o público que nenhuma dimensão da reserva, mesmo a mais íntima, merece a privacidade e que a exibição desses mesmos acontecimentos é sempre premiada.
Se o raciocínio das televisões é a de que o que importa é o "share" televisivo a todo o custo, então resta perguntar qual será o limite. Se o nosso papel é o do público assistindo ao espectáculo de gladiadores, então também nós temos uma responsabilidade final. Se o público abandonar as bancadas, não haverá mais razão para os gladiadores televisivos se baterem na esperança da partilha do triunfo.
A essência da televisão actual não é a democracia - é o mercado; e, como tal, se a nossa arma é o "share", e não o voto, mais vale exercer o direito cívico de fazer cair os "shares" desses canais nos momentos em que transmitem os "reality shows". É que cada um de nós, ao carregar no comando televisivo, está no fundo a decidir se os jogos devem continuar ou não e se ainda precisamos de sacrificar mais alguém. Sem "share" não há publicidade e sem ela não há programa que nesta televisão sobreviva.
Gustavo Cardoso (gustavo.cardoso@iscte.pt) é docente de Ciências da Informação e Comunicação do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) http://www.cav.iscte.pt/~gustavo
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