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Diário de Notícias da Madeira - 15 Mai 03
Família em crise justifica criação de um Ministério
Rosário Martins
| A família, como
instituição que é, está hoje em crise, fruto das mudanças sociais e das
vontades. É urgente inverter este panorama e devolver à família o lugar a
que tem direito na sociedade. No Dia Internacional da Família, que hoje se
comemora, é este o diagnóstico traçado, ao DIÁRIO, por João Correia, um dos
elementos da Delegação Regional da Associação Portuguesa das Famílias
Numerosas (APFN), que é hoje apresentada ao público, pelas 17.30 horas, no
Casjno Park Hotel (sala Niemeyer). |
| A efeméride foi
fixada em 1993 pela ONU-Organização das Nações Unidas, justamente com o
propósito de pôr a sociedade a reflectir sobre a família que «tão
desvalorizada tem sido pela opinião "politicamente correcta" vigente"»,
segundo opina a APFN. |
| João Correia vê,
com toda a pertinência esta comemoração, porque estamos a falar de algo que
«é fundamental na sociedade». |
| Numa análise à
realidade actual, João Correia considera que «se secundarizou bastante o
papel da própria família». Explicitando melhor: «A família está sujeita às
leis sociais e não o contrário. Portanto, a sociedade, em vez de se adaptar
à instituição família, foi esta que se adaptou às leis sociais. Logo, não se
planeou o crescimento da sociedade em relação à família». Esta circunstância
tem tido efeitos «desastrosos». João Correia exemplifica: «As famílias
querem ter filhos e não podem porque os pais não têm dinheiro e
disponibilidade. Resultado: de há 20 anos para cá, tem nascido menos 50 mil
crianças por ano». |
| Mas não só. Para
além dos «problemas gravíssimos do envelhecimento da população», João
Correia alude também à desustruturação das famílias, reflexo da falta de
atenção dos pais e disponibilidade para os filhos. Além disso, essas funções
familiares são cada vez mais delegadas nas escolas e, portanto, verifica-se
uma certa crise da família decorrente deste facto. Também há uma questão de
valores, mas que é mais subjectiva». |
| De tudo isto
decorrem os vários problemas sociais que ensombram a sociedade actual,
nomeadamente o alcoolismo, a droga, a delinquência, entre outros...»
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| A Associação de
que faz parte, esclarece João Correia, não preconiza que toda a gente tenha
uma família numerosa. «Consideramos que se deve defender aquelas pessoas que
querem ter mais filhos e não podem, por constrangimentos sociais».
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| O delegado
regional refere que «a França se confrontou, há alguns anos, com o mesmo
problema de envelhecimento da população. Nos últimos anos, graças a uma
política clara de apoio à família, através de subsídios à mãe, de
maleabilidade dos horários do trabalho, assistiu-se a uma inversão
extraordinária na evolução da taxa de natalidade». |
| SECUNDARIZADA
PELOS POLÍTICOS |
| Já que a defesa da
família passa, e muito, pela política dos governos, resta saber se, em
Portugal, tem havido essa sensibilidade. João Correia comenta: «Nos últimos
20 anos, os sucessivos governos, de todas as cores políticas, secundarizaram
muito o papel da família. No entanto, este governo parece ter uma outra
abertura em relação a esta matéria ao criar o Comissariado Nacional da
Família. Mas não só. O abono de família mostra também uma certa inversão de
política porque, ao atribuir o abono per capita, estamos a beneficiar também
as famílias numerosas». Embora não se trate de «uma medida estruturante,
muito significativa, já mostra uma tendência para inverter esta tendência
anti-natalidade». |
| Por isso, sustenta
este membro da delegação regional da APFN, o Dia Internacional da Família
também é importante para «alertar a governação no sentido de que tem de se
descomplexar do valor da família. Os políticos tinham, até agora, uma certa
vergonha de assumir a família como um valor fundamental na sociedade. Penso
que até se justificava um Ministério da Família, pois é a partir dela que
toda a estruturação da sociedade se deve verificar». |
| SERÃO NACIONAL
DA FAMÍLIA |
| A ANFN realiza,
hoje, em todo o País, a partir das 21 horas, o «Serão Nacional de Família»,
composto basicamente por conferências subordinadas a um tema comum, iniciado
por "Mais Família...». |
| Nessa sintonia, a
Delegação Regional promove uma conferência, pelas 21 horas no Casino Park,
com o tema «Mais Família na Educação», tendo por orador Fernando Adão da
Fonseca, director-geral do Banco Comercial Português e presidente do Fórum
para a Liberdade de Educação, uma associação criada em Setembro do ano
transacto, para ser um espaço de reflexão e comunicação de ideias sobre a
liberdade de educação e o direito dos pais a escolherem as escolas dos
filhos, sem limites geográficos. |
| Também para
Margarida Neto, coordenadora nacional dos Assuntos da Família, «a família
não está em crise, mas está com algumas dificuldades, sobretudo em relação
às crianças, deficientes e idosos, não existindo ainda capacidade de
resposta do Estado adequada às suas necessidades». |
| Em declarações
prestadas à agência Lusa, Margarida Neto explica que, «embora a família,
enquanto núcleo de apoio, continue a ser valorizada pelo indivíduo, o Estado
não se conseguiu ainda organizar de forma a centrar na família as suas
preocupações». Acha que é tempo da «família ser ajudada a desenvolver as
suas competências de forma a que deixe de ser necessário o recurso frequente
à institucionalização». |
| Desestruturação
acontece mais cedo: Sociólogo Paquete de Oliveira propõe mais esclarecimento
sobre o ser homem e mulher |
| Para o sociólogo
Paquete de Oliveira, «a família continua a ser uma estrutura base de
qualquer sociedade, ainda que no seu modo de constituição e de vivência
possam persistir algumas multiplicações em relação à família tradicional e,
sobretudo, à família cristã, que é a predominante nas nossas sociedades e
também em Portugal». |
| Este professor do
ISCTE-Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa assume que há
«uma mudança na forma e no modo de ser da família». Mudança quanto «ao seu
modo de constituição, umas vezes por casamento civil, outras vezes por
matrimónio cristão, ou apenas, por união de facto». |
| Apesar das
alterações que estão à vista de todos, Paquete de Oliveira não tem dúvidas
em afirmar que «a família continua a ser uma estrutura básica da
multiplicação da sociedade e até para o aperfeiçoamento e desenvolvimento da
sociedade». |
| Outra modificação
notada e apontada, ao DIÁRIO, pelo professor do ISCTE prende-se com «o
número de filhos». Antes, «a família tinha sempre um número alargado de
filhos, enquanto hoje é comum a família ter apenas um ou dois filhos».
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| Confrontado com
alguns alertas de associações sobre o clima de crise que atinge esta
estrutura-base social, Paquete de Oliveira observa que, «muitas vezes, o
ambiente envolvente da família também não é dos mais favoráveis, estando ele
próprio em crise. Mas aqui há como que um jogo de espelhos. Tanto se pode
dizer que a crise da família se reflecte, depois, na crise da sociedade como
vice-versa». |
| A apregoada crise
estará relacionada «com um período de instabilidade da família. Hoje, as
famílias desestruturam-se muito mais cedo do que antes, em que havia uma
maior estabilidade. Esta desestruturação resulta, sobretudo, do aumento dos
divórcios, com as problemáticas que daí derivam, não só para o homem e a
mulher, mas, principalmente, para os filhos». |
| MENSAGEM DE
CONFIANÇA |
| Num dia em que a
família está no centro do debate, Paquete de Oliveira quer deixar uma
«mensagem de confiança» no futuro. |
| O professor de
sociologia do ISCTE, reitera também a sua convicção de que «um maior
desenvolvimento da sociedade passa efectivamente por um maior esclarecimento
do quanto a união entre ambos, seja ela vivida sobre que forma for, é um dos
sinais mais positivos para podermos viver com maior alegria e felicidade».
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| Entretanto, Karin
Wald, investigadora do Instituto de Ciências Sociais, avança com um dado
positivo: as famílias recompostas - resultantes principalmente da união de
facto entre indivíduos que já viveram um casamento e que têm um ou dois
filhos, dessa anterior relação - estão a aumentar, produzindo alterações nas
formas de relacionamento do interior do núcleo familiar, nomeadamente no
relacionamento entre padrastos e filhos. |
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