Portugal Diário - 14 Mai 04

Portugueses passam «família» para segundo plano

Margarida Neto afirmou que apesar da confiança que os portugueses têm na família, esta é relegada para segundo plano

A coordenadora nacional para os Assuntos da Família, Margarida Neto, afirmou que apesar de a família ser o primeiro lugar de confiança dos portugueses, é continuamente relegada para segundo plano em detrimento de outros objectivos como os profissionais.

Margarida Neto falava à Agência Lusa a propósito do Dia Internacional da Família, que se comemora sábado, sobre uma eventual crise da família.

"Não sei se a família está em crise, mas sei que há maus indicadores da vida familiar, um deles muito significativo e contraditório é o facto de a família ser sistematicamente esquecida, apesar de afirmarmos que está à frente de tudo", disse.

"É um paradoxo curioso: a família mantém-se como o primeiro lugar de confiança das pessoas - segundo os inquéritos - mas nas suas vidas é relegada para segundo plano, em detrimento da profissão, por exemplo", acrescentou.

Exemplos disso são a quebra da natalidade, o adiamento do primeiro filho ou o pouco tempo que os pais passam com as suas crianças, que ficam até tarde na escola ou em frente à televisão, referiu.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, seriam necessários pelos menos 2,1 filhos por mulher para a renovação de gerações. No entanto, a taxa total de fertilidade é de cerca de 1,5 filhos por mulher.

Um relatório do Conselho da Europa sobre a evolução demográfica indica também que em Portugal o adiamento do casamento e do primeiro filho para uma idade mais tardia tem continuado.

Segundo os mesmos dados, a proporção de crianças nascidas fora do matrimónio aumentou bruscamente, de 9,5 por cento em 1981 para 25,5 por cento em 2002.

A tendência de crescimento do número de casamentos verificada nos anos 90 não se confirmou nos últimos três anos e os divórcios têm tendência para aumentar.

Para Margarida Neto, estes números mostram que as estruturas familiares estão a mudar, apresentando indicadores "negativos e muito complicados" que revelam a existência de um mal-estar social, sobretudo no que respeita às crianças e jovens.

"Assiste-se a uma crescente dificuldade da família estável biparental, com indicadores muito complicados como o aumento dos divórcios, do número de famílias monoparentais ou a quebra de natalidade", comentou.

Além disso - continuou - há uma série de outros problemas que se passam à margem da família mas que estão relacionados com ela e que têm vindo a aumentar.

"O abandono, o absentismo e o mau desempenho escolar, a delinquência juvenil, os problemas galopantes de saúde mental e o número de crianças à procura de institucionalização são fruto de mau estar social e familiar, considerou, justificando que "a família constrói a sociedade, mas é também um reflexo dela".

[anterior]