Público - 14 Mai 05
"É caro e difícil pôr o bebé
na creche"
Sofia Rodrigues
Portugueses recorrem pouco ao trabalho a tempo parcial, porque isso
implica redução do ordenado
A ex-presidente da Coordenação Nacional para os Assuntos
de Família (CNAF), exonerada pelo actual Governo, Margarida Neto, considera
que uma das principais falhas em Portugal, na política da família, é a pouca
acessibilidade aos equipamentos da primeira infância: "É caro e difícil pôr
um bebé na creche". O tempo da licença de maternidade aumentou de quatro
para cinco meses, mas "falta-lhe alguma flexibilidade", segundo Margarida
Neto. Uma das principais falhas demonstradas pelo estudo comparativo das
políticas de família dos Quinze é que os portugueses recorrem pouco ao
trabalho a tempo parcial, apesar de estar estabelecido na lei. "O problema é
que trabalhar metade do tempo implica metade do ordenado. E os ordenados
portugueses já são baixos", explica Margarida Neto, partilhando da ideia de
que Portugal tem falta de medidas para conciliar a vida profissional e
familiar. Nos últimos dois anos em que Margarida Neto dirigiu o órgão
ministerial ligado às questões da família, foi feito algum trabalho, segundo
a ex-coordenadora. Entre as medidas tomadas está a consagração na lei do
direito obrigatório de o pai gozar os cinco dias de paternidade, o aumento
da licença de maternidade de quatro para cinco meses (mediante uma redução
da retribuição) e a possibilidade de a mãe faltar quatro horas por trimestre
por cada filho para se deslocar à escola do filho (para assistir a uma festa
ou falar com um professor, por exemplo). É por fazer um balanço positivo da
intervenção da CNAF que Margarida Neto vê com preocupação o fim do único
organismo estatal dedicado à família. "Já houve muitas formas (secretaria,
direcção-geral), mas nunca tinha desaparecido a estrutura, o que tem muita
gravidade". Foi também extinto o Conselho Nacional Para os Assuntos de
Família, órgão consultivo que fazia parte da CNAF, no seio do qual se
elaboraram os 100 Compromissos para a Família, apresentados em 2004 pelo
então primeiro-ministro Durão Barroso.