Público - 14 Mai 05
"Os políticos têm de acordar
para o problema"
O presidente da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN),
Fernando Castro, considera que os políticos portugueses andam
distraídos em relação à "célula da sociedade" e que "têm de acordar
para o problema". Até porque, diz, o estudo que fizeram (ver texto
principal) revela que "Portugal não tem uma política familiar e que
os outros países a têm".
A situação agravou-se com a dissolução da Coordenação Nacional para
os Assuntos da Família, sem que esteja prevista a sua substituição
por qualquer estrutura equivalente. "É uma situação inédita nos
últimos 25 anos em Portugal", afirma Fernando Castro. Uma das
propostas que a APFN vai apresentar hoje é a criação de um organismo
que permita, ao nível do primeiro-ministro, concertar as medidas
sectoriais dos vários ministérios, e de um órgão consultivo que
integre as várias associações.
"Se fizer uma busca com a palavra família na lei orgânica do
Governo, não encontra nada", refere Castro, lembrando que também não
há nenhuma comissão parlamentar dedicada a este assunto. Uma
situação que considera insustentável: "Nenhum país pode sobreviver a
uma reduzidíssima taxa de natalidade".
Para incentivar a protecção à família, a APFN vai apresentar um
conjunto de propostas de medidas de protecção à família em sete
áreas, da fiscalidade à saúde, passando pela educação. S.R.
A ex-presidente da Coordenação Nacional para os Assuntos de Família
(CNAF), exonerada pelo actual Governo, Margarida Neto, considera que
uma das principais falhas em Portugal, na política da família, é a
pouca acessibilidade aos equipamentos da primeira infância: "É caro
e difícil pôr um bebé na creche".
O tempo da licença de maternidade aumentou de quatro para cinco
meses, mas "falta-lhe alguma flexibilidade", segundo Margarida Neto.
Uma das principais falhas demonstradas pelo estudo comparativo das
políticas de família dos Quinze é que os portugueses recorrem pouco
ao trabalho a tempo parcial, apesar de estar estabelecido na lei. "O
problema é que trabalhar metade do tempo implica metade do ordenado.
E os ordenados portugueses já são baixos", explica Margarida Neto,
partilhando da ideia de que Portugal tem falta de medidas para
conciliar a vida profissional e familiar.
Nos últimos dois anos em que Margarida Neto dirigiu o órgão
ministerial ligado às questões da família, foi feito algum trabalho,
segundo a ex-coordenadora. Entre as medidas tomadas está a
consagração na lei do direito obrigatório de o pai gozar os cinco
dias de paternidade, o aumento da licença de maternidade de quatro
para cinco meses (mediante uma redução da retribuição) e a
possibilidade de a mãe faltar quatro horas por trimestre por cada
filho para se deslocar à escola do filho (para assistir a uma festa
ou falar com um professor, por exemplo).
É por fazer um balanço positivo da intervenção da CNAF que Margarida
Neto vê com preocupação o fim do único organismo estatal dedicado à
família. "Já houve muitas formas (secretaria, direcção-geral), mas
nunca tinha desaparecido a estrutura, o que tem muita gravidade".
Foi também extinto o Conselho Nacional Para os Assuntos de Família,
órgão consultivo que fazia parte da CNAF, no seio do qual se
elaboraram os 100 Compromissos para a Família, apresentados em 2004
pelo então primeiro-ministro Durão Barroso.
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