|
Público - 28 Mai 05
Aventura ou pesadelo, história de uma
fuga amorosa
Em 1993, um grupo de quatro adolescentes das Caldas da Rainha
saiu de casa sem aviso, deixando os pais e os amigos em pânico.
O objectivo era desaparecer para sempre, namorar à vontade,
experimentar o mundo sob o efeito das drogas. Durante mais de um
mês, as caras dos jovens foram das mais procuradas do país,
aparecendo frequentemente nas televisões e nos jornais. A
aventura terminaria em Vigo, quando a doença e a fome reclamaram
o conforto familiar. Doze anos depois, o PÚBLICO põe em
confronto, em discurso directo, o modo como esses dias foram
sentidos por uma das raparigas do grupo e pela mãe do seu
namorado, que fugiu com ela e com outro casal de namorados
Susana, fugitiva
"Estudámos o trajecto, os comboios que tínhamos de apanhar, onde
pernoitaríamos"
Tudo começou quando o meu período falhou. Fiquei em pânico,
julgando que estava grávida do Nuno [nome fictício, como todos
os que aqui aparecem, do namorado]. Sabia que a notícia seria
mal aceite lá em casa, sobretudo pelo meu pai, que nessa altura
era contra o nosso relacionamento.
Juntamente com dois amigos, o Rui e a Marta, eu e o Nuno
decidimos então que o melhor era fugir. Em poucos dias, no maior
secretismo, organizámos tudo, entusiasmados: estudámos o
trajecto da fuga, os comboios que tínhamos de apanhar, onde
pernoitaríamos.
Precavemo-nos também em relação à nossa sobrevivência imediata.
Enquanto não nos instalássemos e arranjássemos trabalho, era
preciso ter dinheiro. Cada um de nós roubou o que pôde aos pais:
o Nuno conseguiu levantar um cheque de cento e tal contos; eu
tirei uns 30, 40 contos que a minha mãe tinha guardado em casa;
os outros também arranjaram mais ou menos o mesmo.
Estava tudo, enfim, preparado para a partida quando, na véspera,
descobri que, afinal, não estava grávida. Vacilei. Só que, nesta
altura, já toda a gente estava excitada com a ideia de sair das
Caldas e viver em total liberdade.
Hoje acho que, no meu caso, pesou bastante querer pregar um
susto ao meu pai. De forma mais ou menos consciente, acho que
foi sobretudo a oposição do meu pai ao meu namoro com o Nuno que
me fez avançar. Não estava grávida mas continuava com esse
problema. Expliquei-o numa carta de despedida, que deixei no
hall de entrada, antes de partir para a estação de comboios.
Não me lembro bem do dia. Foi em Novembro... não, foi em
Outubro. Lembro-me que o comboio saiu ao meio-dia e que, para
confundir os pais, trocámos de transporte várias vezes. Sei que
estivemos em Campanhã, no Porto, onde apanhámos outro comboio
para Guimarães, a nossa primeira estadia.
A nossa ideia, de início, era instalarmo-nos aí de forma
definitiva. Mas, ao terceiro dia, um amigo nosso, que íamos
contactando, telefonou-nos a avisar que a PJ estava no nosso
encalço. Nessa mesma noite, decidimos partir. Às duas da manhã,
apanhámos um táxi em direcção a Valença do Minho, na fronteira
com Espanha. Foram duas horas de viagem. Pagámos um balúrdio.
Alugámos um quarto e, de manhã, seguimos para Vigo, na Galiza.
"O dinheiro acabou mesmo"
Uma vez aqui, ficámos alojados na pensão de um português. E
começámos a procurar trabalho, visto que o dinheiro que
leváramos de casa já escasseava. Contudo, sendo todos menores -
tínhamos 17 anos - e não dominando bem a língua, ninguém nos
queria dar emprego. O português da pensão ainda nos ajudou: de
manhã, íamos comprar os jornais para ver as ofertas de emprego e
depois ele é que fazia os contactos. Mesmo assim, não
conseguimos nada.
O dinheiro acabou mesmo e as coisas complicaram-se. Tivemos que
nos mudar para uma casa de okupas. De dia, pedíamos na rua e
recorríamos às refeições distribuídas aos sem-abrigo pelas
instituições de solidariedade da cidade. Quando conseguíamos,
ainda roubávamos alguma coisa nos supermercados - o Nuno não
gostava nada de pedir. Andávamos todos porcos. A casa não tinha
água.
Entretanto, o Rui separou-se da Marta. A Marta consumia heroína,
entrou noutras ondas. Os okupas consomem muita erva mas não
deixam entrar drogas duras, pelo que a Marta chegou a passar
noites fora, não sabíamos onde nem com quem. O Nuno também já
consumira heroína, mas controlava-se.
Para o fim, começámos a telefonar para casa. Mas sempre sem
falar directamente com os nossos pais: a Marta falava com a
minha mãe ou com a mãe do Nuno, por exemplo, e eu telefonava
para a mãe dela. Dizíamos que estava tudo bem. Não estava.
Às vezes, dormíamos na rua, cheios de frio. Acabámos por
adoecer. O Rui andava muito magro, ficou com febre. Eu apanhei
uma infecção urinária. Foi a gota de água. Um mês e meio depois
de fugirmos, ligámos para casa e pedimos que nos viessem buscar.
Lembro-me que combinámos ao pé do El Corte Inglés. O meu pai,
quando me viu, a primeira coisa que disse foi: "Então, a
lua-de-mel já acabou!" Ele conseguiu sempre manter o bom humor.
Já nas Caldas, fui viver com o Nuno, para casa dos pais dele.
Anos depois tivemos um filho e, actualmente, vivemos todos
juntos e felizes.
Olhando para trás, vejo que esta experiência foi uma ilusão,
fruto da imaturidade. Mas admito, também, que me ajudou a
crescer. Que foi, também, uma grande lição de vida.
[anterior] |