Métodos utilizados na ficção são parecidos com os da PJ
O responsável
pelas Brigadas de Investigação e Averiguação de Desaparecidos da
PJ aceitou comentar um episódio da série norte-americana Sem
Rasto, protagonizada por uma equipa
do FBI. Nem tudo é ficção
A dada altura, o agente Jack Malone pede uma
análise às impressões digitais deixadas numa peça de roupa da
criança procurada. Os homens do FBI recorrem a um computador
sofisticado para fazer a diligência. O sistema informático
inicia então uma busca rápida para ver se alguma das impressões
digitais, existentes na base de dados, coincide com a que foi
recolhida - e que poderá corresponder ao autor do
desaparecimento.
Francisco Santos Silva [responsável pelo Departamento Central de
Informação Criminal e Polícia Técnica da PJ], sentado na
secretária do seu gabinete na Gomes Freire, em Lisboa, analisa o
episódio - o segundo da série vencedora de dois Emmys,
actualmente a ser transmitida na 2:. O procedimento não o
surpreende."Nós temos um sistema igual. Chama-se IAFIS -
Automated Fingerprint Identification System. Posso mostrá-lo."
Numa sala a poucos metros, no primeiro piso do edifício da PJ, a
imagem que surgira no ecrã repete-se. Um elemento da polícia
técnica olha demoradamente para duas impressões digitais que
dividem a meio o monitor do seu computador. Procura semelhanças
entre os traços de ambas; mas a amostra da impressão digital
recolhida não está em bom estado. "A única diferença para a
série Sem Rasto é que ali parece tudo muito fácil: os resultados
surgem num segundo. Na realidade, podemos ter de ficar horas a
contrapor duas impressões digitais para saber se elas pertencem
à mesma pessoa", concretiza.
De novo a ficção. A história começa assim: um rapaz de 11 anos
vai ao futebol com o pai, mas perde-se dele quando entra num
comboio. De início pensa-se que a criança desapareceu
inadvertidamente, mas depois percebe-se que se trata de uma fuga
premeditada. O homem que faz de líder da Unidade de
Desaparecidos do FBI entrevista o pai do rapaz, procurando
despistar conflitos familiares. O diálogo é tenso.
"O nosso ponto de partida é sempre quem comunica o
desaparecimento, e normalmente são os pais a fazê-lo. No caso
das crianças acontece também que, na maioria das vezes, o
desaparecimento resulta de problemas familiares. É sempre
difícil fazer perguntas sobre isso. As pessoas têm dificuldade
em admitir que há coisas que não correm bem na sua vida
privada", explica Santos Silva, acentuando o "realismo" da
série.
Segue-se a reconstituição de todos os passos dados pelo miúdo.
No quartel do FBI são assinalados os locais onde o rapaz foi
visto, ao longo do dia.
"É preciso refazer o quotidiano do desaparecido. Eles utilizaram
um cronograma. Nós por vezes também recorremos a ele. Há
inclusive um sistema mais sofisticado, chamado Analist Note Book,
que faz várias conexões. Serve para nos ajudar a pensar e a
sistematizar os elementos."
Os agentes da Unidade de Desaparecidos partem depois para a rua:
voltam ao local do desaparecimento, passam a pente fino as
estações do metro. Identificam os pedófilos da zona. Um outro
elemento permanece nas instalações da unidade, recebendo dezenas
de telefonemas de pessoas que, alertadas pela comunicação
social, alegam ter avistado o desaparecido.
"A divulgação da cara dos desaparecidos na comunicação social
pode ajudar a encontrá-los. Antigamente, fazia-se muito isso.
Havia muita gente a telefonar, mas a maioria das pistas eram
falsas. Agora, com a vulgarização do uso da Internet, essa
divulgação é feita sobretudo no site da PJ."
A trama avança e complexifica-se. De pista em pista, os
protagonistas de Sem Rasto chegam a um cibercafé, onde a criança
procurada terá estado. No disco rígido do computador que
utilizou descobre-se a gravação de um diálogo mantido com um
adulto: o rapaz confessa-se triste por ter descoberto, há pouco
tempo, que tinha sido adoptado; o interlocutor consegue fazê-lo
acreditar que é ele o seu pai biológico - os dois marcam um
encontro.
"A Internet é cada vez mais um instrumento de investigação.
Muitas informações úteis podem estar guardadas num disco
rígido", sublinha Francisco Santos Silva, recordando o caso da
adolescente da Beira Alta encontrada em Lisboa. "Foi através da
Internet que alguém lhe indicou uma pensão para ela se alojar. E
foi devido a essa conversa que nós conseguimos encontrá-la",
explica.
A polícia apercebe-se do golpe do homem que afirma ser pai do
desaparecido e monta uma operação no local marcado, para
capturar o pedófilo. O desenlace avista-se. No momento do
encontro, contudo, o suspeito tenta fugir, acabando por ser
perseguido e derrubado com um voo circense de um dos agentes.
Francisco Santos Silva reafirma a verosimilhança de Sem Rasto,
apenas notando a inexistência, natural, de aspectos menos
românticos da investigação policial. "Na série, por exemplo,
eles não precisam de autorizações judiciais, da anuência do
magistrado do Ministério Público, da ordem do juiz. É tudo feito
muito rapidamente. E é tudo muito optimista", diz. Por outro
lado, brinca com a actuação musculada da última cena. "Para
aquela situação, foi uma atitude bastante operacional."