Diário de Notícias -
9 Mai 07
Calem-me a criancinha que não
consigo mastigar
João Miguel Tavares
Estava Miguel Sousa Tavares na TVI a comentar a nova
Lei do Tabaco quando da sua boca saltou esta pérola:
o fumo nos restaurantes, que o Governo quer limitar,
incomoda muitíssimo menos do que o barulho das
crianças - e a estas não há quem lhes corte o pio.
Que bela comparação. Afinal, o que é uma nuvenzinha
de nicotina ao pé de um miúdo de goela aberta? Vai
daí, para justificar a fineza do seu raciocínio,
Sousa Tavares avançou para uma confissão pessoal:
"Tive a sorte de os meus pais só me levarem a um
restaurante quando tinha 13 anos." Há umas décadas,
era mais ou menos a idade em que o pai levava o
menino ao prostíbulo para perder a virgindade. O
Miguel teve uma educação moderna - aos 13 anos,
levaram-no pela primeira vez a comer fora.
Senti-me tocado e fiz uma revisão de vida. É que eu
sou daqueles que levam os filhos aos restaurantes.
Mais do que isso. Sou daquela classe que Miguel
Sousa Tavares considerou a mais ameaçadora e
aberrante: os que levam "até bebés de carrinho!". A
minha filha de três anos já infectou
estabelecimentos um pouco por todo o país, e o meu
filho de 14 meses babou-se por cima de duas ou três
toalhas respeitáveis. É certo que eles não pertencem
à categoria CSI (Criancinhas Simplesmente
Insuportáveis), já que assim de repente não me
parece que tenham por hábito exibir a glote cada vez
que comem fora - mas, também, quem é que acredita
nas palavras de um pai? E depois, há todo aquele
vasto campo de imponderáveis: antes de os termos,
estamos certos de que vão ser CEE (Crianças
Exemplarmente Educadas), mas depois saltam cá para
fora, começam a crescer e percebemos com tristeza
que vêm munidos de vontade própria, que nem sempre
somos capazes de controlar.
O que fazer, então? Mantê-los fechados em casa?
Acorrentá-los a uma perna do sofá? É uma hipótese,
mas mesmo essa é só para quem pode. Na verdade, do
alto da sua burguesia endinheirada, e sem certamente
se aperceber disso, Miguel Sousa Tavares produziu o
comentário mais snobe do ano. Porque, das duas uma,
ou os seus pais estiveram 13 anos sem comer fora,
num admirável sacrifício pelo bem-estar do próximo,
ou então tinham alguém em casa ou na família para
lhes tomar conta dos filhinhos quando saíam para a
patuscada. E isso, caro Miguel, não é boa educação -
é privilégio de classe. Muita gente leva consigo a
prole para um restaurante porque, para além do
desejo de estar em família, pura e simplesmente não
tem ninguém que cuide dos filhos enquanto palita os
dentes. Avós à mão e boas empregadas não calham a
todos. A não ser que, em nome do supremo amor às
boas maneiras, se faça como os paizinhos da pequena
Madeleine: deixá-la em casa a dormir com os irmãos,
que é para não incomodar o jantar.