Diário de Notícias - 19 Mai 07
Casamenteiros miopes
João Miranda
O Bloco de Esquerda quer facilitar o divórcio. Mas
não se trata de eliminar burocracia desnecessária. O
Bloco pretende instituir o divórcio unilateral e sem
penalizações para quem assume a responsabilidade de
terminar o casamento. É uma medida muito conveniente
para o cônjuge que se arrependeu de um compromisso
livremente assumido. No entanto, o casamento é uma
instituição que transcende as conveniências do
momento. É ao mesmo tempo uma instituição
espontânea, um contrato e um certificado. O
casamento é uma instituição espontânea que emerge
das características biológicas e culturais da
espécie humana. É uma instituição milenar que
precede o Estado moderno e as religiões organizadas
existentes. Sendo resultado da evolução cultural ao
longo de milhares de anos, responde às restrições
sociais e naturais de curto prazo - e às restrições
de longo prazo que escapam à miopia do legislador. O
casamento tem contribuído para a regulação dos
impulsos sexuais, para a estabilidade familiar, para
a protecção e a educação dos menores e para a
auto-regulação da sociedade. Tento resistido ao
teste do tempo, está particularmente adaptado à
natureza humana e às culturas em que se desenvolveu.
Devemos por isso desconfiar de quem pretendam
reinventar o casamento de acordo com a moda do
momento. O casamento enquanto contrato torna
possível uma relação de longa duração entre duas
pessoas com interesses assimétricos e em que os
custos estão desfasados dos benefícios. Se não fosse
possível realizar um contrato formal, muitas
relações viáveis correriam o risco de terminar
rapidamente, minadas pela desconfiança e pela
incerteza. A proposta do Bloco destrói a confiança
no casamento enquanto contrato por duas vias. Por um
lado, é um sinal de que as condições contratuais
podem ser alteradas a meio do contrato. Por outro, o
divórcio unilateral sem penalização acaba com uma
das poucas garantias de cumprimento que o contrato
de casamento ainda tem. Enquanto certificado, o
casamento serve para provar perante a sociedade que
um determinado casal tem uma relação estável. O
divórcio unilateral proposto do Bloco reduz os
custos do divórcio ao ponto de tornar o casamento
apetecível a quem não está suficientemente empenhado
em relações permanentes, o que contribui para
degradar o valor do casamento enquanto certificado.
As propostas do Bloco contribuiriam, pois, para
destruir uma instituição milenar, para acabar com
uma opção contratual necessária para a estabilidade
de um número significativo de famílias e para tornar
um certificado reconhecido e respeitado num título
sem valor. Desta forma o Bloco contribuiria para a
destruição de uma instituição que facilita a
auto-regulação da sociedade tornando necessária a
sua substituição por instituições estatais menos
eficientes.