Portugal Diário.pt - 10 Mai 08
Pobreza: cada vez mais famílias aflitas
Do Porto até Faro, passando pelo Funchal, o cenário
é igual: há casos muito difíceis e são cada vez mais
O número de pedidos de auxílio alimentar solicitado
por famílias do grande Porto tem crescido de forma
significativa nos últimos tempos, disse à Lusa Marco
António, da Legião da Boa Vontade (LBV). Esta
instituição distribui mensalmente cem cabazes com
bens alimentares, mas tem havido muitos pedidos a
que não tem sido possível responder, afirmou o mesmo
responsável.
Temos colocado mais bens em cada cesta, mas não
temos possibilidade de aumentar o número de cabazes,
frisou. Contudo, realçou, em situações excepcionais
recorremos ao cabaz de emergência, que em vez dos 24
quilos habituais contém apenas 12/13 quilos de bens
alimentares.
Recebemos casos muito difíceis, em particular de
casais em que estão ambos desempregados, sublinhou.
Marco António disse à Lusa que a instituição já
ponderou alargar o número de famílias que apoia
mensalmente, mas teve de recuar nessa sua intenção.
A crise nota-se também nas campanhas de recolha de
bens que temos realizado, disse.
Pobreza envergonhada no Algarve
A pobreza envergonhada, ou seja, pessoas que tiveram
no passado um estilo de vida elevado e perderam o
nível de vida devido ao desemprego, excessivo
endividamento ou outro problema são algumas das
causas do aumento de pobres no Algarve. Em
declarações à Lusa o presidente da Cáritas no
Algarve, Carlos Oliveira, salienta que vai redobrar
a atenção para novos casos de pobreza ou agravamento
de situações precárias.
Temos de reforçar o nosso trabalho nas ajudas que
estamos a dar, nomeadamente na ajuda medicamentosa,
comida ou pagamento de casa, água e luz, considerou
Carlos Oliveira. A Cáritas identificou no Algarve,
nos últimos anos, 1.500 famílias a necessitar de
ajuda, ou seja entre três mil a quatro mil pessoas
pobres e precisam de apoio alimentar, ou ajuda
medicamentosa, ou ajuda para pagar a casa, luz e
água.
Beja: 565 famílias recebem ajuda alimentar
Em Beja, a Cáritas Diocesana distribui géneros
alimentares a 565 famílias carenciadas e alimenta
cerca de 35 pessoas por dia para aliviar as
carências substanciais e preocupantes no concelho,
onde os pedidos de ajuda têm aumentado, disse à Lusa
a presidente da instituição, Teresa Chaves.
Os géneros alimentares, excedentes da União Europeia
(UE) e provenientes das recolhas do Banco Alimentar,
são distribuídos sobretudo por famílias numerosas e
monoparentais ou em situações de desemprego ou
baixos rendimentos. Há casos de famílias que ficam
com muito pouco ou até mesmo sem dinheiro para
comprar alimentos depois de pagar despesas fixas,
como a prestação da casa ou as contas de
electricidade, água e gás, exemplificou a
responsável.
As situações de carência e os pedidos de ajuda têm
aumentado, frisou Teresa Chaves, explicando que,
ultimamente, famílias que não fazem parte da lista
de beneficiários dos excedentes da UE têm procurado
a Cáritas a pedir ajuda e alimentos pela primeira
vez.
Não há pobreza miserável, mas famílias estão
aflitas
O responsável pela Caritas Diocesana do Funchal
afirma que deixou de existir a pobreza miserável na
Madeira, mas que o número de pessoas em dificuldades
financeiras vai agravar-se se persistir a escalada
no aumento dos preços. Ainda assim, disse à agência
Lusa José Manuel Barbeito, ninguém de bom senso nega
que existe pobreza, sobretudo consequência do
desenvolvimento que levou a que uma franja da
sociedade tenha ficado mais marginalizada.
O responsável da Cáritas fala ainda do crescimento
de casos de pessoas em situação aflitiva por causa
do endividamento, provocado pela evolução das taxas
de juro com a habitação e aquisição de bens para
lar. Esta instituição apoia mais de 300 agregados
familiares, principalmente no Funchal, Câmara de
Lobos e Santa Cruz.