Público - 13 Mai
08
Escola, autoridade e hipocrisia
Santana-Maia Leonardo
Uma das consequências mais nefastas do salazarismo
foi a identificação, na alma lusa, do conceito de
autoridade com o de repressão fascista, que para o
cidadão comum passaram a ser sinónimos. Por essa
razão, toda a gente hoje se queixa de falta de
autoridade, mas não há ninguém que consiga dar
substância a esse conceito, porque todos rejeitam
liminarmente o uso da força. Ora, não existe
autoridade sem que esteja subjacente o exercício da
força.
Durante muitos anos, a autoridade dos professores
era uma autoridade delegada. Para que um aluno
obedecesse ou respeitasse o professor, bastava a
ameaça de chamar o pai. Isso suficientemente
dissuasor. E a escola tinha as portas abertas. Quem
não se portasse bem era, pura e simplesmente,
expulso.
Acontece que, neste momento, não vale a pena fazer
apelo aos pais. Durante os últimos 30 anos,
desestruturámos completamente as famílias. Pais, no
sentido de um casal que, em conjunto, tem por
desígnio educar e criar os filhos, são uma espécie
em vias de extinção. Hoje o único cimento da maior
parte das famílias são os avós. Não tarda muito que
o Estado tenha de assumir por inteiro a
responsabilidade de educar as crianças, porque os
pais são já, na maior parte dos casos, indivíduos
avulsos que transitam pela vida dos menores sem
nunca aí se fixarem.
Por outro lado, a escolaridade obrigatória impede os
indesejados de serem atirados para fora do sistema.
E os indesejados (uma doença contagiosa) constituem
um grupo em crescimento, que detesta a escola,
muitos deles não querem sequer lá andar e os pais ou
são piores do que os filhos, ou têm medo dos filhos.
Aliás, hoje são já os professores que têm medo que
certos filhos chamem os pais e não o contrário. Ora,
como é que se lida com esta gente? Estou a falar de
jovens até aos 12/13 anos, porque, quando eles
chegam aos 14 anos, sem qualquer orientação, já só
se lá vai com a polícia. (...) A solução para
resolver este problema teria de passar
necessariamente pela coragem de expulsar da escola
todos os alunos que tivessem condutas anti-sociais
graves, remetendo-os para escolas especiais criadas
para o efeito. A expulsão teria ainda o mérito de
funcionar como medida disciplinar altamente
dissuasora, levando muitos jovens a esforçar-se para
não serem tão indesejados. Mas isso seria assim se
não vivêssemos numa sociedade que tem por trave
mestra a hipocrisia.
Por esta razão, direita e esquerda procuram tornear
a questão, cada uma a seu modo: a direita,
defendendo o cheque-ensino e a liberdade de escolha
(ou seja, já que eu não posso expulsar os
indesejados da escola do meu filho, então quero ter
o direito a escolher a escola do meu filho); a
esquerda, defendendo a escola inclusiva, ao mesmo
tempo que opta por colocar os seus filhos nos
colégios privados.
Santana-Maia Leonardo
Ponte de Sor