Diário de Notícias - 8 Mar 04

Para casar, mulheres inteligentes
FILOMENA NAVES

Atraentes e bonitas, maternais q.b., mas acima de tudo inteligentes. Na hora de casar é assim que os homens escolhem: mulheres inteligentes. Em alguns casos, até mais do que eles. É isso que revela o estudo «Higher male educational hypergamy: evidence from Portugal», do biólogo Hamilton Correia.

Publicada no Journal of Biosocial Science da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, «esta foi também a primeira investigação do género que abordou o problema com base no comportamento real e não a partir de inquéritos», explicou ao DN o autor, que está a fazer o doutoramento em antropologia biológica, sobre a base genética da inteligência, na Universidade de Coimbra.

Já se sabia que os homens dão mais importância à inteligência da mulher quando está em causa a escolha da companheira para uma relação duradoura e potencial mãe dos seus filhos. Pesquisas do início da década de 90, baseadas em inquéritos, mostraram isso mesmo: para os homens, a inteligência é um factor determinante nessa escolha. O contrário, no entanto, não se verifica. Para as mulheres, esse parâmetro não parece decisivo na eleição do parceiro.

Partindo de dados do Instituto Nacional de Estatística, o investigador português fez um estudo inédito ao analisar uma larga amostra de casais: exactamente os 66.598 que deram o nó em Portugal no ano de 1998. Distribuiu-os segundo o nível educacional dos cônjuges e avaliou as semelhanças e diferenças entre eles.

«Utilizei apenas três graus diferenciados de escolaridade, o básico, o secundário e o superior», explica Hamilton Correia, sublinhando que os patamares educacionais podem funcionar como «um importante indicador de estatuto social e de inteligência» e, neste sentido, são um parâmetro significativo neste tipo de estudo.

Os resultados, publicados no ano passado, mostram várias coisas interessantes. Uma delas é que em 75 por cento dos casos - a grande maioria, portanto - marido e mulher têm o mesmo nível de escolaridade (é a chamada homogamia educacional). Nos restantes 25 por cento dos casais, o grau de scolaridade dos dois cônjuges é diferente, tendo as mulheres mais escolaridade do que os respectivos maridos (hipergamia masculina). A situação contrária (homens com nível educacional mais alto) não tem qualquer expressão estatística: não chega sequer a um por cento.

Para Hamilton Correia, esta realidade - que não é exclusiva de Portugal e que cientistas no Reino Unido e na Austrália estão também a confirmar com estudos idênticos - «tem uma explicação biológica no contexto da evolução da espécie humana». A explicação é esta: sendo os genes maternos mais importantes na determinação da inteligência dos filhos do que os genes do pai, «a escolha de mulheres mais inteligentes por parte dos homens teria sido um comportamento seleccionado no contexto da evolução da espécie, de forma a garantir o maior sucesso dos filhos», diz o investigador, notando que «a inteligência foi um dos principais factores que determinaram o êxito adaptativo dos seres humanos».

Estudos recentes parecem apoiar a tese do biólogo. Por um lado, tudo indica que os genes responsáveis pelo crescimento da inteligência nos seres humanos são os mesmos que determinaram o aumento da sua massa encefálica - factor que veio a revelar-se crítico para o êxito da espécie. «Teve de haver um mecanismo evolutivo que determinasse o tamanho do cérebro, favorecendo ao mesmo tempo a inteligência mas não impossibilitando o parto», diz o investigador. Esse mecanismo dependeu da mãe e foi geneticamente determinado por ela.

Por outro lado, percebeu-se recentemente que é o genoma materno o determinante para o crescimento encefálico nos bebés: os receptores da hormona de crescimento nos neurónios (as células que constituem a massa cinzenta no cérebro) são expressos por genes maternos. Tudo aponta, pois, no mesmo sentido: o papel decisivo - «mas não exclusivo», sublinha o biólogo - dos genes maternos na inteligência dos filhos.

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