Público -
02 Mar 08
Detalhes de ética política
António Bagão Félix
O que conta cada vez mais não é a substância, mas a
forma, não é a consistência mas a estatística1Nos
interstícios dos factos políticos, às vezes
sugeridos ou alimentados pela "arte"do Governo,
outros assuntos de importância para as pessoas
passam ao lado ou são apenas perceptíveis em
"detalhes". Seleccionei três que revelam que o que
conta cada vez mais não é a substância, mas a forma,
não é a consistência, mas a estatística, não é a
verdade técnica, mas a mentira política.
2. O primeiro tem a ver com a nova incidência do IVA
sobre a contribuição para o audiovisual a pagar na
factura da electricidade. Ao tentar justificar esta
medida, o ministro Santos Silva disse candidamente
que tal "resulta da lei"... Lei que estabelece que
estão sujeitas a IVA as transmissões de bens e as
prestações de serviços efectuadas a título oneroso.
Alguém, com boa-fé, acha que a contribuição
obrigatória para o audiovisual (taxa obrigatória na
factura de electricidade, independentemente de o seu
titular possuir aparelho de rádio ou de televisão) é
"uma transmissão de um bem ou uma prestação de
serviço"?
Trata-se de uma nova e insólita carga tributária, ao
arrepio de todas as normas de bom senso e
razoabilidade fiscais. Dir-se-á que o que está em
causa não merece muita atenção, pois apenas se trata
de lançar o IVA a 5% sobre a referida taxa, o que,
embora no total vá render ao Estado mais de seis
milhões de euros, implica apenas mais 9 cêntimos por
mês para os consumidores de energia. Uma
insignificância para o Governo que, ao mesmo tempo,
considera 68 cêntimos de acréscimo das pensões um
significante aumento. Mas a questão é de princípio.
É um espelho de como o Estado trata os
contribuintes. Numa qualquer alínea perdida num mar
de remissões da lei orçamental, à socapa, o Governo
lança mão de uma nova e original forma de onerar as
pessoas: lança um imposto sobre uma taxa. Original,
sem dúvida, ilegítimo, por certo. O Tribunal
Constitucional concorda? E o que pensa o provedor de
Justiça?
3. Noutro âmbito, o Governo pôs de lado o regime
complementar de pensões que resultaria de um tecto
contributivo e, em aparente compensação, anunciou os
certificados de reforma, uma espécie de PPR do
Estado. Está no seu direito. Agora não pode é passar
para a opinião pública a ilusão de que se trata de
um alternativo e ousado regime complementar. Os
trabalhadores continuarão a descontar para a
Segurança Social sobre a totalidade do seu salário e
o Governo concede-lhes "magnanimamente" a
possibilidade suplementar (e não complementar) de
aplicarem mais 2% a 6% do salário num PPR do Estado.
Passando o Estado a operar no mercado, seria
expectável haver regras de sã concorrência com os
produtos similares de aforro. Quem fizer no Estado
um segundo PPR, tem um desconto no IRS, mas se esse
segundo produto for feito no mercado já não o tem.
Aliás, este incentivo vai beneficiar, mais uma vez,
quem tem forte capacidade de poupança. Não se
imagina um trabalhador com um salário mediano a
aumentar o seu desconto para além dos 11% que hoje
já a Segurança Social lhe leva. E como os benefícios
fiscais não são gratuitos, a restrita minoria que
deles vier a beneficiar será financiada pela
esmagadora maioria dos que não o podem fazer.
E qual a entidade que vai supervisionar estes "novos
PPR", ou será que o Estado, para si, dispensa tal
prática prudencial? E vão sujeitar-se às mesmas
exigências dos outros PPR e Fundos de Pensões, no
que se refere a margens prudenciais de solvência, de
garantia e de limites materiais de composição da
carteira dos activos financeiros que suportam
aqueles produtos? Ou serão esses activos meras
"sucursais" da dívida pública? E quem vai suportar
na totalidade as cargas de gestão, venda e resgate:
os subscritores ou os contribuintes da Segurança
Social? E como pode o Governo anunciar, com
ligeireza, risco zero (induzindo erradamente as
pessoas), quando vai ter que investir em activos de
mercado? Não é o executivo que acaba de adoptar uma
cínica via de morte lenta e de alteração de
legítimas expectativas dos detentores de
certificados de aforro, o mesmo que se diz às
pessoas para adquirirem certificados de reforma...
"sem risco"?
4. Mais um auto-elogio do Governo a propósito da
diminuição da taxa de pobreza de 20% para 18%. O
primeiro-ministro e o MSST apressaram-se a dizer
quanto esta diminuição era fruto das medidas sociais
do executivo, como a elevação do salário mínimo e
"algumas medidas de natureza fiscal do executivo" (sic!!!).
José Sócrates entusiasmou-se mesmo com o "efeito
fundamental" (sic) do complemento solidário para
idosos, criado em 2006, para 300.000 pessoas, mas
que só abrange restritivamente 60.000. Aquela
melhoria revelada pelo inquérito do INE realizado em
2006 teve por base, como sempre, o rendimento das
famílias inquiridas no ano anterior. Ou seja: na
verdade, a taxa de pobreza desceu de 20%, em 2003,
para 18%, em 2005... e não em 2006, como Sócrates
proclamou!
5. Eis três exemplos de como hoje se governa. Com
malabarismos, usando e abusando da natural
ignorância das pessoas em certas matérias,
aproveitando a impreparação de parte significativa
da comunicação social. Sobranceiramente, acham que
vale tudo. Ex-ministro da Finanças