Público -
11 Mar
08
Encalhados
Helena Matos
Os professores não inventaram o monstro:
adaptaram-se às reformas que lhes foram entregues
pela 5 de Outubro
Vinte e seis ministros em três décadas e meia para
um ministério onde os funcionários são mais de
duzentos mil. Na sua maioria são mulheres, têm uma
formação superior à da população portuguesa e são
conhecidas como stôras.
Não houve alteração política em Portugal que não
sublinhasse o potencial e os perigos resultantes da
dispersão regional e da extraordinária proximidade
que os professores mantêm com a população. Os
professores sempre foram vistos como um
extraordinário veículo de propaganda ou como
perigosos agitadores: a República pô-los a oficiar
cerimónias maçónicas, o Estado Novo controlou-os e
perseguiu-os mais do que a quaisquer outros
funcionários e a democracia almejou que eles
construíssem, em cada escola, aquele que era o seu
modelo de sociedade ideal - um universo onde a
disciplina surgia naturalmente, se trabalhava sem
esforço e onde todos eram iguais. Não por acaso é um
dos homens que associamos ao espírito da Primavera
marcelista e que na democracia voltou a ser
ministro, Veiga Simão, que encontramos a pôr em
marcha a escola enquanto alter-ego duma sociedade
que vê na igualdade uma espécie de estado de bondade
irremediavelmente perdido para os adultos mas
passível de ser recriado para as crianças e jovens.
Ao extinguir o chamado ensino técnico entendeu a
geração de Veiga Simão que se estava a dar um forte
contributo para acabar com as diferenças entre
pobres e ricos, pois todos passariam a frequentar a
escola unificada. Simultaneamente, a escala de
avaliação de 1 a 20 foi condensada em 1 a 5. O
resultado foi o 3 tornar-se nota universal para
alunos que iam do medíocre ao bom. Se algo a 5 de
Outubro conseguiu criar rapidamente nas escolas foi
esse assustador centrão da mediocridade. Mas nada
disto foi ou é suficiente para que o Ministério da
Educação se dê por derrotado nos seus desígnios de
política social: em nome da igualdade, a actual
equipa ministerial terminou com o ensino artístico,
uma decisão que à semelhança do que sucedeu com o
ensino técnico pode vir a ter implicações futuras
calamitosas.
Sob a batuta da 5 de Outubro o universo-escola criou
uma linguagem própria que tornou apresentável este
reino do absurdo, em que se tornaram indistintos não
apenas os resultados mas também o que fazia cada um
na escola. Os professores e alunos passaram a
ensinantes e aprendentes mútuos, a transmissão de
conhecimentos deu lugar a uma situação relacional
onde por vezes se ficava retido e a violência
escolar passou ser encarada como uma forma não
enquadrada da expressão de problemas. Para cúmulo, o
próprio saber dos professores entrou numa espiral de
relativismo: o que importava era acumular créditos
em acções de formação e não o conteúdo dessas
acções. Assim, era rigorosamente igual para um
docente de Alemão frequentar uma acção de formação
em língua alemã, ecologia ou azulejaria. Isto numa
versão relativamente bondosa do sucedido, porque em
alguns casos chegaram a fazer-se seminários para
docentes ministrados por "terapeutas de energias" e
astrólogos. Tudo isto devidamente avalizado e
estimulado pelo ministério.
Os professores não inventaram nada do monstro que
anda para aí. Simplesmente adaptaram-se a todas as
reformas prontas a usar que lhes foram entregues
pela 5 de Outubro. Os professores temem agora - e
têm fortes motivos para isso - que a avaliação os
torne nos bodes expiatórios do falhanço duma
política, a da educação, que leva 11 por cento do
investimento público português e não apresenta
resultados minimamente satisfatórios. Diz a ministra
que os professores não querem ser avaliados.
Provavelmente tem razão a senhora ministra. Mas os
professores apenas se limitam a fazer seus os
princípios básicos do ministério. Durante quantos
anos o ministério tentou que não fossem conhecidos
os dados que permitem elaborar os rankings? E, por
acaso, deixa Maria de Lurdes Rodrigues que os pais
avaliem as escolas? Quando digo avaliar não falo de
preencher fichas ou dar notas a professores. Falo da
única forma que conheço de avaliação dum serviço:
termos a liberdade de o trocar por outro.
O critério da escolha das famílias - instituindo o
cheque ensino e dando liberdade às escolas públicas
para se organizarem consoante as necessidades
daqueles que as procuram - é o único processo de se
poder avaliar o trabalho duma escola e dos seus
professores. Os professores serão avaliados no dia
em que numa qualquer escola pública, em Portugal, um
encarregado de educação possa dizer que quer
transferir o seu filho para a escola A, seja ela
pública ou privada, simplesmente porque ela é melhor
e que, na sequência dessa transferência, os cinco
mil euros que o Estado português gasta anualmente
com a educação do seu filho passarão a ser entregues
na escola Y e não naquela que frequentou até então.
As fichas que tanta indignação têm suscitado não
pretendem avaliar professores. São simplesmente um
mecanismo de controlo por parte do ministério para
com os seus funcionários. Mecanismo autoritário e
legitimador de subjectividades várias como sempre
aconteceu na relação entre o ministério e os
professores. Mas aos pais e aos alunos essas fichas
interessam tanto quanto os requerimentos que os
professores têm de preencher. Ou seja, quase nada.
Os pais e os alunos estão encalhados à espera que
algo consiga quebrar esta concepção da educação que
leva a que a mesma esteja reduzida a uma guerra
entre a rua, onde os professores desfilam ao sábado,
e o ministério donde a ministra faz prova de vida
nos noticiários da noite do fim-de-semana. Quer os
professores quer a ministra sabem que não têm margem
para muito mais.
Entretanto, de segunda a sexta, os alunos
portugueses fazem o seu ensino obrigatório numa
escola que não podem escolher. Será que a ministra e
os professores querem mesmo falar de avaliação?
Jornalista
Uma lista impressionante: Eduardo Correia, Vitorino
Magalhães Godinho, Vasco Gonçalves, Rui Grácio,
Manuel Rodrigues de Carvalho, José Emílio da Silva,
Vítor Alves, Mário Sottomayor Cardia, Carlos Lloyd
Braga, Luís Valente de Oliveira, Luís Veiga da
Cunha, Vítor Pereira Crespo, João Fraústo da Silva,
José Augusto Seabra, João de Deus Pinheiro, Roberto
Carneiro, Diamantino Durão, Couto dos Santos,
Manuela Ferreira Leite, Marçal Grilo, Guilherme
d"Oliveira Martins, Santos Silva, Domingos Pedrosa
de Jesus, David Justino, Maria do Carmo Seabra,
Maria de Lurdes Rodrigues - eis os ministros da
Educação desde Abril de 1974.