Público -
22 Mar
08
Os valores da câmara
José Vítor Malheiros
São as equipas de televisão que presenciam o
fenómeno de perto sempre que fazem uma filmagem de
rua. O protesto pode constar de uma dúzia de pessoas
a conversar na rua mas, mal se liga a câmara, todas
se concentram no cone de luz e gritam com exaltação
as suas queixas, os seus sofrimentos, as suas
palavras de ordem ou o que for. É assim na faixa de
Gaza ou na Ribeira. Desliga-se a câmara e dir-se-ia
que a multidão também é desligada. As multidões e os
indivíduos menos sofisticados tornaram-se media wise,
sabem como usar as câmaras. Sabem que quando a
câmara é ligada o tempo é de espectáculo e que os
quinze minutos de fama estão à espreita.
As razões para a indisciplina nas escolas são
inúmeras, desde a inexistência de uma cultura de
cidadania, à demissão das famílias e dos
professores, à falta de formação dos educadores, à
falta de compreensão do papel das regras na
educação, à degradação do ambiente físico e social
nas escolas onde tudo convida à conflitualidade e
nada à reflexão, à confusão entre permissividade e
liberdade, à degradação das competências
comunicacionais, à influência do entretenimento que
enaltece a brutalidade e à ubiquidade da violência,
à pressão dos pares, à necessidade de se destacar e
de desafiar as regras.
E a tudo isto vem somar-se a influência nefasta das
câmaras de telemóvel, que têm a capacidade de
transformar qualquer bulha num espectáculo para a
Internet. É nítida no vídeo do Carolina Michaelis
essa consciência: quem filma diz aos outros que se
afastem, que não entrem em campo, está ali a ser
feito um filme e a filmagem inibe ainda mais os que
pensassem em intervir - não se estraga o
espectáculo, the show must go on. A estranha
paralisia dos colegas, que não intervêm para pôr fim
ao disparate, tem algo a ver com isto. Será que a
protagonista mais jovem do confronto se deu conta de
que estava a ser filmada? Será que ela também não
quis prejudicar a "acção"? Vídeos destes - muitas
vezes mais violentos - são correntes na Grã-Bretanha
e nos EUA e pela Internet. Jovens provocam desacatos
(na aula, na rua, no centro comercial) para que um/a
amigo/a os filme. São encenações para a Web, as
lesões um dano colateral. São conhecidas como happy
slapping mas não têm nada de happy e já houve alguns
que chegaram ao homicídio, num frenesim de
violência. Esses jovens sabem que estão a ser
filmados e são violentos para ser filmados e porque
são filmados, porque a violência lhes garante a
visibilidade que nada mais lhes dá e o enquadramento
num ecrã lhes dá uma ilusão de idoneidade. O vídeo
da Carolina Michaelis tem um triste herói anónimo: o
cameraman, o que vai alimentando a acção. É ele,
mais que outro, o símbolo da falta de valores que a
imagem apenas reflecte. E se os valores da escola
não puderem competir com estes, é melhor
fechá-la(s).