Jornal da Madeira - 25 Mar
08
Há que apoiar as
famílias mas sem discriminação
Ricardo Caldeira
João Correia, sobre a
petição para aumentar subsídios a agregados
monoparentais
A Associação de
Famílias Monoparentais está a promover uma petição a
pedir mais apoios, entre os quais um aumento de 50
por cento no abono de família por cada filho. Para
João Correia, da Associação de Famílias Numerosas,
esta é uma forma de discriminação entre os
diferentes tipos de família que não pode nem deve
ocorrer. Na sua opinião, os apoios devem ser para
todas as famílias.
Está a circular na
internet uma petição para que sejam feitas
alterações legislativas que permitam mais apoios às
famílias monoparentais. Entre as exigências,
destaca-se um aumento de 50 por cento do abono de
família por cada filho.
Confrontado com este
movimento, João Correia, da delegação regional da
Associação de Famílias Numerosas, afirmou ao JM que
a atribuição de apoios apenas a estes agregados
seria uma forma de discriminação entre as famílias
monoparentais e as famílias tradicionais, com a qual
não concorda. No entender do nosso interlocutor,
todas as famílias que têm filhos devem ser apoiadas,
independentemente de serem monoparentais ou não,
especialmente aquelas que têm mais filhos, algo que,
diz, actualmente não se verifica.
João Correia sustenta
que esta é uma questão de princípio que tem de ser
tida em conta, já que «o Estado tem de apoiar todos
de igual forma». «Não faz sentido apoiar os filhos
de pais divorciados ou de outras famílias
monoparentais e não apoiar os filhos das famílias
tradicionais, que não estejam nessas condições»,
acrescentou.
Por outro lado, o
nosso interlocutor refere que nestes casos (excepto
em situações de viuvez ou outras pontuais) é preciso
ter em conta que, apesar de um dos pais não viver
com o resto da família, «ele existe» e «não se pode
demitir das suas obrigações». Para este membro da
Associação de Famílias Numerosas, o que é preciso é
ter em atenção o facto de Portugal ter uma baixa
taxa de natalidade, daí ser necesário haver
incentivos e apoios às famílias, independentemente
da sua tipologia.
Outra das exigências
que a referida petição prevê é que, no caso de
incumprimento no pagamento de pensões de alimentos
pela parte que não vive com o filho, devam ser
activados os fundos de garantia do Estado. João
Correia considera que se esta proposta chegar a ser
aceite, a mesma poderá contribuir para um aumento da
falta de responsabilidade por parte de alguns pais.
Daí que, na sua opinião, neste campo cada caso deva
ser analisado diferentemente.
Segundo os Censos
2001
16,9 por cento são
monoparentais
De acordo com os
Censos de 2001, cedidos pela Direcção Regional de
Estatística, naquela altura 16,9 por cento das
famílias madeirenses eram monoparentais. Dez anos
antes, em 1991, o número de famílias deste tipo era
1,5 por cento inferior, ou seja, 15,4 por cento das
famílias eram monoparentais. De acordo com os
referidos dados, o concelho do Porto Moniz era
aquele com maior proporção de núcleos monoparentais,
com 22,6 por cento, ao passo que Porto Santo e
Machico eram aqueles com índices mais baixos, na
ordem de 13,9 por cento.
O Porto Moniz foi
igualmente o concelho em que o número de famílias
monoparentais mais cresceu neste período de 10 anos,
tendo-se verificado um aumento de cinco por cento.
Já a Calheta, a Ponta do Sol e a Ribeira Brava viram
decrescer este tipo de núcleos familiares.
Por outro lado, em
Portugal, as famílias monoparentais situavam-se na
ordem dos 11,5 por cento.
Considera uma mãe
solteira, em declarações ao JM
Tem de haver um maior
rigor na avaliação dos processos em tribunal
Mónica, uma mãe
solteira que acedeu falar com o JM, afirma que é
preciso haver um maior rigor por parte do sistema
judicial no que concerne à avaliação dos processos
relativos à disputa pela tutela de crianças e
fixação de pensões.
A nossa interlocutora
refere que discorda do sistema judicial em termos de
tribunal de menores, porque «quando vão apurar o
vencimento da parte que não está com a criança não
pedem documentos comprovativos, os processos são
morosos, e as pessoas vão lá mentir e não há nenhuma
forma de comprovar aquilo que estão a dizer e
ficam-se pela mentira».
Quanto à petição a
pedir mais apoios para as famílias monoparentais,
Mónica refere que «do ponto de vista financeiro é
óbvio que dá sempre jeito mais dinheiro». Contudo, e
apesar de a própria constituir com o filho uma
família monoparental, sublinha que «o estado não tem
culpa se as pessoas decidem ser pais solteiros». Por
isso, considera também que caso sejam atribuídos
mais apoios a estes agregados isso será
discriminação em relação às outras famílias. Mónica
diz que tudo se torna mais fácil quando ambos os
pais vivem com os filhos, porque dividem as contas,
mas, volta a frisar, quando isso não acontece, o
Estado não tem de assumir a responsabilidade.
Apesar de defender o
tratamento igualitário entre os diferentes tipos de
família, a nossa interlocutora adianta que «criar um
filho só é muito difícil». Mas, acrescenta, «a
partir do momento em que assumi fazê-lo, tenho de
arcar com todas as consequências».