Público - 28 Mar
08
O défice, o dito e o não dito
Graça Franco
Redução para 2,6 por cento, em 2007, é obra, mas não
é verdade que a crise orçamental esteja ultrapassada
Primeiro as boas notícias: um défice de 2,6 por
cento, em 2007, quando ainda há um ano nos parecia
improvável que se conseguissem os prometidos 3,6 por
cento, é obra! Um resultado histórico e o valor mais
baixo da história da democracia, como gosta de
referir o Governo. Menos uma décima do que nos idos
de 99, acrescento eu. Quando Fernando Teixeira dos
Santos também estava nas Finanças, fazendo parte da
equipa do saudoso professor Sousa Franco. Saíram do
Governo em Outubro, mas não é arriscado supor que,
se tivessem encerrado as contas desse ano, os
actuais 2,6 por cento não seriam recorde.
Seja como for, os 2,6 por cento actuais são obra!
Sobretudo se tivermos em conta que não só o valor
final ficou quase 2 mil milhões abaixo do previsto
como a descida do défice surge, finalmente, a par da
redução da dívida pública, interrompendo uma espiral
de subida preocupante. Com uma redução de oito
décimas, o peso da dívida na riqueza nacional
regressou assim aos 63,6 por cento (o mesmo valor
que Sócrates encontrou quando chegou ao poder em
2005). Ora, este não é um pormenor quando o país já
gasta anualmente em juros quase 5 mil milhões, ou
seja, mais 700 milhões do que gasta em investimento.
Desta vez não teremos um suspeito "défice escondido
com dívida de fora" como tivemos em 2006, embora a
dívida continue muito cima dos desejáveis 60 por
cento a que nos obriga o pacto de estabilidade.
Dito isto, sobra ainda uma outra boa notícia: o
anúncio que este ano o défice vai continuar a descer
para 2,2 por cento (contra os 2,4 antes prometidos).
Uma contracção inferior às cinco décimas de
ajustamento mínimo anual recomendado por Bruxelas,
mas que, ainda assim, pressupõe uma louvável dose de
determinação.
Tanto mais que qualquer estratégia de consolidação
se encontra, este ano, dificultada pelas incertezas
sobre a conjuntura internacional e as reais ameaças
ao nosso frágil crescimento. Os 2,2 por cento de
crescimento inicialmente previstos pelo Governo para
este ano parecem já totalmente inalcançáveis e o
governador do Banco de Portugal já admite que o
crescimento se possa ficar, afinal, abaixo dos 2 por
cento que ele próprio estimara, ou seja, aquém do
mítico limite para alguma redução do desemprego!
Sem crescimento, não há receitas fiscais que
resistam e, sem isso, os cortes na despesa - sempre
mais difíceis - tornam-se ainda mais necessários. A
promessa exige coragem e não só reforça a
credibilidade externa como mostra a força do
ministro das Finanças e o seu papel-chave como
moderador das pulsões populistas em ano
pré-eleitoral.
Passemos então às notícias menos boas: não, não é
infelizmente verdade que a crise orçamental esteja
ultrapassada. Para isso exigia-se não um défice
próximo do limite máximo suportável (2,6 contra 3
por cento!), mas um défice de quase metade deste
valor ou um excedente "à espanhola". Estamos muito
longe desse cenário.
Por outro lado, é importante olhar à forma como o
resultado foi conseguido: claro que a consolidação
se fez também à custa da dura reforma da Segurança
Social (com cortes drásticos nos direitos e em
algumas prestações e com efeito sustentado no longo
prazo!), mas não só.
A reforma da administração pública acabou por dar um
contributo inferior ao previsto e os ganhos
conseguidos nesta área resultaram sobretudo do quase
congelamento de salários e progressões automáticas
nas carreiras, medidas que são, por definição,
temporárias.
Os funcionários públicos foram, aliás, os mais
sacrificados. As contribuições para a ADSE
levaram-lhes mais 0,5 por cento dos rendimentos e
nem os aposentados escaparam, com um aumento das
contribuições de 1 por cento.
Desta vez o investimento não sofreu o corte a que
nos habituámos nos últimos anos, acabou a rondar os
3,9 mil milhões, reflectindo um acréscimo de 300
milhões face à última previsão, mas, mesmo assim,
muito abaixo da média dos últimos anos. Para este
ano, aliás, está já previsto um novo corte de 200
milhões, que poderá acabar por ser compensado com o
aumento dos fundos de Bruxelas.
Chega-se então ao grosso da consolidação: o reforço
da receita e, em concreto, da receita fiscal. Face
às previsões de Outubro que apontavam já para um
disparo substancial das cobranças, as receitas
ficaram-se, afinal, 1300 milhões acima, o que
permitiu não só que o Governo gastasse mais 837
milhões do que tinha anunciado como ainda pudesse
apresentar um défice inferior ao previsto.
Ainda assim, fruto do maior crescimento no ano
passado que fez o PIB aumentar em mais de 700
milhões, o peso da despesa no produto acabou por se
reduzir em meio ponto face a 2006. Um bom sinal.
Quanto à carga fiscal, subiu, como é sabido, mais
uma vez, passando de 36,7 para 37,5. Não foram
apenas os que já pagavam impostos que passaram a
pagar mais, mas o grosso do esforço recaiu, como
habitualmente, sobre os contribuintes cumpridores,
incluindo os reformados.
E das menos boas passemos às outras notícias: o
anúncio da descida da taxa de IVA de 21 para 20 por
cento (diminuindo para 4 por cento o diferencial
face a Espanha!).
Trata-se de uma medida positiva para a retoma da
confiança? Provavelmente sim, mais do ponto de vista
psicológico, porque é quase irrelevante do ponto de
vista do consumidor. Anunciada a três meses de
distância, permitirá todo o tipo de estratégias de
apropriação deste ganho por parte da generalidade
dos comerciantes e aos bolsos do povo só chegará
provavelmente uma parte ínfima do bolo de 250
milhões de receita perdida. Sendo de apenas um
ponto, também não será assim que se resolve o
problema de competitividade face a Espanha.
Mas um efeito é certo: o efeito perverso de
descredibilizar o discurso do Governo em crise de
identidade/popularidade.
Descredibilização porquê? Porque Sócrates afirmou
ainda no dia 14 o seguinte: "Todos os que falam em
descida de impostos e prometem descidas de impostos
apenas demonstram uma grande leviandade e uma grande
irresponsabilidade, não conhecendo os dados da nossa
economia no final do ano passado e dos primeiros
meses deste ano". Na altura, juntei-me aos
comentadores que louvaram as afirmações do
primeiro-ministro, num gesto de grande
responsabilidade face às propostas populistas da
oposição.
Ao contrário de Teixeira dos Santos, o
primeiro-ministro não condicionava a descida de
impostos a resultados orçamentais (já se sabia que o
défice ficaria abaixo de três por cento, só não se
sabia quanto...), mas mostrava estar consciente de
que a descida de impostos só era compatível com uma
melhoria dos dados económicos que permitissem
salvaguardar exactamente os bons resultados
orçamentais necessários ainda no futuro. Ora, os
dados já conhecidos não o permitiam e a conjuntura
económica internacional em degradação acelerada
desaconselhavam-no.
O que mudou entretanto? As revelações do Instituto
Nacional de Estatística? Falso. O INE, em matéria de
défices excessivos, é apenas uma espécie de
pombo-correio das Finanças e o brilharete orçamental
deve-se muito às contas da Segurança Social, já do
conhecimento das Finanças.
O que se soube de novo, desde dia 14, que
justificasse a mudança de opinião? Conheceu-se a
síntese de conjuntura do Banco de Portugal com a
revelação de que o "indicador coincidente da
actividade económica" caiu de 1,8 para 1,3 entre
Janeiro e Fevereiro, ficando-se ao nível do quarto
trimestre de 2006, em clara inversão da tendência de
retoma.
Dizia o mesmo texto que também o indicador
coincidente do consumo privado caíra de 0,7 para 0,4
(valor que não tem precedentes nos últimos anos!)
com a confiança a ficar-se em menos 42 pontos, coisa
de que também não há memória recente. Soma-se a
informação do INE sobre a degradação do sector da
construção e sobre a desaceleração "significativa" e
generalizada em Fevereiro de todas as componentes do
investimento.
Foi isto que fez o Governo entrar em pânico e tentar
a todo o custo recuperar a confiança? Estranho
processo esse, que passa, mais uma vez, por dar o
dito por não dito! Jornalista