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26 de Novembro de 2000 - Expresso
Culpas
Aníbal Costa Santos
SERVE esta crónica para falar da atenção que os pais dão aos filhos e vem a propósito do Natal. Apesar de ainda estar a um mês de distância, o 25 de Dezembro já começou na publicidade e nas conversas de colégio, há muito tempo (antes das eleições norte-americanas, vejam lá!, quando ainda se pensava que adiamentos, recontagens e chapeladas eram exclusivos de sistemas democráticos metidos à pressão pela má consciência ocidental numa qualquer ditadura reciclada).
Facto é que já vamos buscar os miúdos aos Tempos Livres, ao Estudo e a Casa da Tia Augusta à noitinha - hora de Inverno, hora de inferno -, à luz das iluminações camarárias, muita rena, muito pinheiro, muita estrelinha feita de lâmpadas. Certo é que, a esta hora, já o palácio, os pastéis e outros locais de Belém receberam algumas dúzias de cartinhas ao Menino e ao Pai Natal, enfiadas pelos mais crédulos dos nossos infantes no primeiro marco de correio que encontraram à saída de casa, fora da vigilância dos pais.
Estão a ver a cena? Eles de mochila de rodas de rastos, a largar borrachas dos poquémones pelos fechos mal corridos, e nós já com o motor a aquecer, como se as bichas não o fossem pôr ao rubro até à porta da escola, toca a andar, meninos, que já são quase sete e meia, e eles sem pressa nenhuma, ainda a esticarem-se para o marco dos CTT, como se nos tivéssemos levantado todos, mal o despertador começou a dar notícias dos primeiros congestionamentos nos acessos à ponte, e nós, entra e põe o cinto, que é a única coisa que lhes sabemos ensinar no pouco tempo em que estamos juntos.
E é aqui que está o busílis, no pouco tempo que estamos juntos. Um estudo recente mostrou que, em média, os pais portugueses - e não são os piores do mundo, não se pense; os americanos estão à cabeça da lista dos mais ausentes; veja-se como ficou W. Bush, que já foi Primeiro Filho, quando o pai era Presidente dos States - convivem com a ninhada trinta e poucas horas por semana.
Não admira, portanto, que as listas de prendas sejam como são: o resumo escrito com erros de ortografia dos blocos publicitários da televisão das horas mortas, a televisão que nos toma conta da infância, enquanto se prepara o jantar, se arrumam os papéis para o dia seguinte, se calafetam as janelas, que já venta, se lêem os e-mails, se respira fundo.
É também a falta de tempo que nos faz cumprir na medida dos possíveis os pedidos alinhavados pelos pequenos megalómanos, da trotineta para cima e para baixo, derretendo o 13º, o 14º, o 20º mês, pagando em géneros a amnistia dos crimes de consciência. Mas tenho uma amiga que não se rende sem dar luta e, enquanto prepara a refeição da noite, ocupa as suas crianças com uma tarefa demorada: a lista de prendas do Natal que vem só é válida se incluir pelo menos dois pedidos de brinquedos que não sejam publicitados nos intervalos do Batatoon.
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