4 de Novembro de 2000 - Expresso

O Grande Irmão e o 1º dissidente 

João Carlos Espada

REUNIRAM-SE ao cair da tarde, para comemorar as grandes vitórias recentes. Cada um usava o nome do seu autor preferido. O primeiro a falar foi Marcuse: 

- Camaradas, temos boas razões para celebrar. É certo que o nosso programa libertador sofreu grandes reveses no passado: o inimigo burguês unidimensional conseguiu mobilizar as famílias e o mercado para impedir a colectivização da propriedade e a igualdade económica. Mas, agora, estamos de novo na ofensiva: o consumo de drogas foi legalizado, a pílula do dia seguinte estará disponível sem receita médica, e a educação sexual libertadora vai começar em todas as escolas. Estamos à beira da libertação do jugo do preconceito e da família. A seguir virá a libertação do jugo da propriedade privada e do comércio! 

Todos aplaudiram, entusiasmados. Foi a vez de Lenine usar da palavra: 

- Sim, isso é verdade, e foi isso que os bolcheviques fizeram na Rússia, antes e logo a seguir à Revolução. Mas o camarada Marcuse não referiu um inimigo fundamental: a religião. Que faremos para abolir a religião? 

Rousseau levantou-se imediatamente: 

- É um erro atacar directamente a religião. O que precisamos é de transformar a actual religião hipócrita em religião da autenticidade, da autêntica libertação dos impulsos naturais do homem, que são sempre bons. Precisamos de uma teologia da libertação que nos liberte da desigualdade, da propriedade, e das hipócritas convenções sociais. 

Cromwell e Robespierre aplaudiram enfaticamente: 

- É dessa religião libertadora que precisamos. E o Estado deve abraçá-la e converter todas as igrejas à religião libertadora. Meus irmãos, também precisamos nas nossas escolas de educação na religião libertadora do Estado. 

Sentado a um canto, um pouco agitado, Proudhon pediu então a palavra. E disse que tinha as suas dúvidas: 

- Sou a favor da libertação, mas por que razão temos de meter nisto o Estado? Porque vamos mandar educadores sexuais libertar as pessoas? Não seria melhor haver escolas descentralizadas - obviamente não privadas, mas colectivamente autogeridas - e as pessoas libertarem-se por elas mesmas? 

Platão, Hegel e Marx trovejaram em uníssono: 

- Libertarem-se por elas mesmas? Sem a luz dos filósofos e a mão do Estado, as pessoas ficarão oprimidas pela família, pela propriedade privada e pelo comércio: em suma, pela sociedade civil. Temos o dever de as libertar! 

Um rapaz novo, que hesitava entre usar o nome de Locke, de Hume, ou de Burke, pediu então a palavra: 

- Isso não vai dar certo. Vejo as notícias do mundo e observo o contrário. Na América também tentaram essas medidas - e que sucedeu? As famílias fugiram das escolas do Estado para as privadas, sobretudo religiosas, e há cerca de dois milhões de crianças a serem educadas em casa. Em Inglaterra, até um governo progressista já faz campanha pelo casamento e pela virgindade antes do casamento. 

Os outros levantaram-se, escandalizados. - A América e a Inglaterra?! - exclamaram. E Rousseau tomou a dianteira. 

- Nesses países não há Vontade Geral. Os ingleses ainda não proibiram a monarquia, nem a Casa dos Lordes, nem a caça à raposa. É um escândalo! 

E na América - ripostou Marx - andam a baixar os impostos. É inadmissível! E são todos unidimensionalmente religiosos -, gritou Marcuse, batendo com os punhos na mesa, no que foi secundado por Nietzsche, até aí em silêncio. 

- É um escândalo - gritaram todos. - Depois de libertar Portugal, havemos de libertar a Inglaterra e a América. 

Foi então que interromperam a reunião para assistir ao noticiário das 8 na televisão. Numa casa sexualmente libertada pelo Grande Irmão, dois camaradas tinham relações sexuais em directo. Era a libertação final. O rapaz mais novo afastou-se discretamente do grupo. Ele não queria ser libertado. Era o primeiro dissidente. 

 

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