Público - 28 de Novembro de 2002
Câmara de Coimbra com Um «Executivo» Rejuvenescido...
Por ÁLVARO VIEIRA

Alunos de oito anos vereadores por um dia

Não se pode proibir os meninos de fazer chi-chi no recreio? Pôr ambulâncias à porta dos parques para as pessoas que se sentirem mal? E por que é que se gasta dinheiro com o Eurostadium, em vez de se construir o Hospital Pediátrico?

As propostas que preconizavam que os meninos fossem proibidos de fazer chi-chi no recreio, de passar rasteiras no futebol ou de gritar muito alto quando marcam golo não chegaram a ser votadas. E o mesmo sucedeu a «projectos fracturantes», como o da atribuição das casas abandonadas aos pobres ou o da troca das obras do Eurostadium pela construção de mais centros de saúde ou do novo Hospital Pediátrico, que Coimbra há muito reclama . No entanto, apesar de não se ter materializado em qualquer deliberação, a reunião foi unanimemente considerada «muito produtiva».

Ontem, o executivo da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) realizou uma reunião extraordinária, com as cadeiras dos vereadores ocupadas por alunos de oito anos vindos da vizinha Escola Básica (EB) de Santa Cruz. Naturalmente, nem todas as sessenta crianças presentes puderam experimentar as cadeiras do poder, mas todas tiveram oportunidade de intervir.

Só Carlos Encarnação manteve o papel habitual de presidente da edilidade. De resto, também era preciso alguém com experiência na condução de reuniões agitadas, ainda que a de ontem tenha sido até de uma correcção exemplar. Era sobretudo necessário que estivesse ali alguém habilitado a explicar às crianças como funciona a Câmara.

Foi isso que levou os alunos da EB de Santa Cruz aos paços do concelho, com algumas perguntas ensaiadas que não prejudicaram a espontaneidade da sessão.

Carlos Encarnação esforçou-se por assegurar que era respeitada a «desordem de trabalhos». As questões do trânsito e segurança, em primeiro lugar na agenda, levaram os meninos a perguntar porque não havia polícias destacados para as passadeiras de peões ou porque não eram os motoristas obrigados a esperar que os velhinhos se sentassem, antes de fazer arrancar os autocarros.

Encarnação afirmou que gostaria muito que surgissem em Coimbra associações de voluntários, como as que existem no estrangeiro, junto às escolas, a garantir que as crianças atravessavam a rua em segurança. E a insistir na importância da escola como promotora de indutora de civismo, dos motoristas de autocarro como das pessoas em geral.

Os alunos também se mostraram sensíveis à necessidade de criar mais jardins, com parques de «brincadeiras» para as pessoas terem vontade de os frequentar, e de arranjar as casas velhas. «Por que é que a Câmara não as
arranja e dá aos pobres?», perguntou um deles.

Em termos acessíveis, Encarnação respondeu que já é mais ou menos isso que a autarquia está a fazer, substituindo-se aos senhorios relapsos, quando as casas reclamam obras urgentes, e fazendo-se pagar depois. Em casos extremos, apoderando-se da própria casa que é, depois, disponibilizada para fins de habitação social. Também prometeu que, em 2003, terá início a construção de mais bairros sociais, defendendo que esta será outra forma de a CMC aumentar o número de fogos disponíveis e de intervir no mercado da Habitação. Alguns alunos já haviam observado que as casa em Coimbra eram muito caras.

No final da reunião de duas horas, em que as crianças mantiveram uma compostura apreciável, Carlos Encarnação declarou aos jornalistas que as perguntas dos alunos demonstravam como certos problemas da cidade, como o preço da habitação ou a degradação da Alta, já pertenciam ao «património negativo» de Coimbra. Problemas tão óbvios que até as crianças os compreendiam.

Na recta final da sessão, uma professora aproveitou para pedir ao professor a concessão de uns «lugarzinhos de estacionamento» para os docentes da escola. Encarnação esforçou-se por explicar que a política da Câmara passava, justamente, por desincentivar a utilização do automóvel particular e nem reparou que a sua vice-presidente, Sara Beatriz, estava de dedo no ar. E o dedinho foi ali apanhado, suspenso, pela declaração do presidente que encerrou a reunião.

O PÚBLICO tentou esclarecer o contributo que Sara Beatriz ainda tinha para dar, mas teve que aguardar que a vice-presidente emergisse do enxame de crianças que logo envolveu Carlos Encarnação solicitando-lhe autógrafos.

Já munida da assinatura presidencial, Sara Beatriz, que agradecia com um grave «obrigada, senhor presidente» sempre que este lhe concedia a palavra, explicou, a correr, que só tinha levantado o dedo por ter percebido mal qualquer coisa sem importância e que já resolvera o equívoco. Então e a sessão? «Gostei muito. A sessão foi muito gira. Aprendemos muito sobre a câmara. E é só o que tenho a dizer por agora. Muito obrigado».

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