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Expresso - 22 de Novembro de 2002
Optimismo no Ensino
Henrique Monteiro
Acaso pudéssemos ter aquele optimismo militante do dr. Pangloss, curiosa
personagem de Cândido, a mais conhecida obra de Voltaire, veríamos com agrado
que 16 cursos do Ensino Superior ficaram, este ano, sem alunos - «Magnífico país
que tem, na área educativa, oferta superior à procura», comentaríamos.
Mais felizes ainda, quando reparássemos que nas Línguas e Literaturas a variante
mais às moscas é a opção Português/Espanhol - «Avisados alunos, que sabem não
valer a pena aprender espanhol, uma vez que, mais tarde ou mais cedo, os
espanhóis o hão de ensinar a todos nós». Ou a saber que na Engenharia do
Ambiente, dos 17 cursos propostos, apenas nove esgotaram as vagas - «Há, de
facto, pouco ambiente para o ambiente». Ou, ainda, ao verificar que, nas
matemáticas, a procura é desastrosa; metade na Universidade Nova, dois alunos
para 40 vagas em Trás-os-Montes, um para 15 vagas nos Açores - «Sensatos jovens,
que como Sócrates apenas sabem nada saber de matemática, pelo que não se
arriscam a más figuras». Ou, também que em Equinicultura do Instituto
Politécnico de Santarém só entraram três alunos - «Fantástica rapaziada que dos
vastos conhecimentos de história reteve que os cavalos, além de virem a perder
utilidade, sempre se criaram sem cursos de equinicultura, razão pela qual põem
de parte tão duvidosa carreira».
Do mesmo modo optimista poderemos encarar os cursos mais requisitados. São eles
os ligados à Saúde - o que fica bem num país onde o sistema educativo está
bastante doente -, Direito e Arquitectura, nos quais se aprende a processar e
julgar malandros diversos e a levar à prática a nossa consumada e sapiente
política de betão.
Para aqueles que não comungam o optimismo de Pangloss (nem do filósofo alemão
Leibnitz, que serviu de modelo à caricatura), as leituras podem ser diversas.
Arrisco uma, bem simples e prosaica: há cursos a mais e bom senso a menos. E
depois queixam-se que não há dinheiro para a Educação.
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