| Público - 11 Nov 04
Histórias
do Telemóvel?
Por JOSÉ
PACHECO PEREIRA
A namorada -
Onde estás?
O namorado da
namorada - Estou aqui.
- Aqui aonde?
- Aqui...
estou a estudar em casa.
- A estas
horas, em casa? Mas que barulho é esse?
- A televisão.
- Parece o
mar, estás-me a mentir. Põe lá a televisão mais alto, para eu saber
se estás em casa e não na praia.
- ...
*
O marido -
Parabéns! Tenho um presente para ti...
A mulher - O
que é ?
- Um telemóvel
destes mais modernos.
- Que bom! O
que é que ele faz?
- Tem tudo,
tira fotografias, filma, tem GPS.
- O que é isso
do GPS?
- Assim
pode-se sempre saber onde uma pessoa está, ninguém se perde. Sei
sempre onde tu estás...
- Sabes o quê?
- Assim se te
atrasares eu não fico preocupado, sei que foi o trânsito, ou os
miúdos.
- Não confias
em mim?
- Confio. Sei
que não me escondes nada. É por isso que te dou este telemóvel.
- ...
*
O patrão -
Então você já começou o arranjo do motor?
O empregado -
Já. Já cá estou.
- Já chegou? É
que você atrasa-se sempre. Veja lá...
- Esteja
sossegado que já estou a trabalhar.
- Mostre-me lá
a peça que está a compor.
- Mostro como?
- Então, o seu
telemóvel do serviço mostra imagens, mostre lá a peça para eu a ver
no meu.
- ...
*
Todas estas
histórias são de mentiras, as mais comuns das mentiras. Mas seria
errado vê-las apenas como histórias de mentiras - são também
histórias dos efeitos de um pequeno instrumento que os portugueses
compraram em massa nos últimos cinco anos e que entrou de repente no
seu quotidiano e na sua sociabilidade.
O telemóvel é
a peça singular de tecnologia que mais transformou a vida social dos
portugueses nos últimos dez anos. Pode-se pensar que foi o
computador, mas não foi. O computador acrescenta uma nova forma de
trabalho a quem tem as literacias necessárias para o usar. É verdade
que também acrescentou alguns comportamentos sociais novos, como os
que se manifestam no correio electrónico, nos "chats" e nos blogues,
que revelam virtualidades sociais até então inexploradas - os
"chats", com o seu jogo virtual de "personae" e os blogues como nova
forma de diário intimista ou ficcional, ou como locais de debate e
expressão não editados, acrescentados ao espaço público. O correio
electrónico, por sua vez, fez regressar à escrita muito do que tinha
passado para a voz. Apesar de todas estas formas de utilização do
computador e da Internet estarem a mudar o conjunto da realidade,
não têm para já o impacto social que têm tido os telemóveis num
espaço de tempo muito pequeno.
O telemóvel,
em conjunto com outras alterações associadas à comunicação pelo
telefone, como a generalização dos gravadores de chamadas, os SMS, e
as tecnologias da nova geração, como os telefones com câmaras, vídeo
e GPS, está a ter um impacto profundo nos comportamentos sociais de
uma parte significativa da população portuguesa. Este impacto é
desigual em termos de classe social, idades e literacias, mas até
por via dessas diferenças revela o seu efeito de mudança. São os
mais novos, adolescentes em particular, a ponta-de-lança destas
mudanças. Foram eles que revolucionaram o SMS, dando origem a uma
linguagem "telefónica" original e que mais rapidamente usam as novas
incorporações de funcionalidades nos telemóveis. São também os
primeiros que são cobaias dos seus efeitos.
Os efeitos na
sociabilidade são vários. Os gravadores de chamadas tornaram
socialmente inaceitável não se responder às mensagens enviadas ou
gravadas. Passou a ser quase impossível estar incomunicável, a não
ser que não se tenha telefone. A incomunicabilidade, total ou
parcialmente desejada, tornou-se uma nova forma de má educação.
Com o
telemóvel, as pessoas estão sempre presentes, ou espera-se que
estejam sempre presentes. Existe um efeito de "presencialidade" em
tempo real contínuo. O número de chamadas diárias entre as pessoas
cresceu exponencialmente, aumentando a promiscuidade dos
quotidianos. Muitas das mentiras referidas acima são o resultado
dessa dificuldade de vivência do quotidiano sem promiscuidade, sem
intrusão.
A aceitação
sem reservas das novas funcionalidades, fotografias, filmes,
transmissão directa de imagens e vídeo, localizadores activos ou
passivos, colocam sérios limites à privacidade e à identidade de uma
vida própria. Como muitas vezes acontece, essa intrusão começa por
ser desejável, até incentivada, e acaba a prazo por se tornar num
incómodo ou numa agressão.
Claro que,
como em quase todas as coisas, tudo se pode aceitar ou recusar, mas
estas tecnologias vão colocar novos problemas em sociedades em que
cada vez mais a "confiança" é testada num quotidiano espectacular,
observado em tempo real ou quase real, sem fugas para espaços que
não tenham sobre eles olhares, sem silêncios, nem discrições,
obcecadas com uma falsa transparência que impede a espessura e o
sentido. Já não é o Big Brother a olhar para nós, somos todos a
olhar para todos. É a "aldeia global", mesquinha, pegajosa, que sabe
tudo e espia tudo, toda contente com os aparelhos mágicos que tudo
transmitem e tudo recebem.
Historiador
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