| Diário de Notícias - 29 Nov 04
O povo sem futuro
joão césar
das neves
Professor universitárioA Europa está
em vias de extinção. Esta afirmação não é uma acusação, profecia ou
aviso. É simples extrapolação das tendências recentes. Não é para já
nem será súbito, mas no remanso do nosso quotidiano seria bom saber
que estamos envolvidos numa linha de decadência. Perante os
bizantinos decretos da Comissão e os palavrosos debates do
Parlamento Europeu, talvez fosse conveniente conhecer este «pequeno»
detalhe.
A primeira dimensão da extinção é quantitativa: a população europeia
está em queda absoluta. Num mundo em crescimento, esta perda
constitui uma força decisiva. Nas previsões da ONU (State of
World Population 2004, UNFPA), constata-se que os 25 países que
constituem a actual União Europeia (UE25) vão perder mais de 23
milhões de pessoas até 2050. Portugal perde um milhão, mais que a
média. Como o globo no mesmo período aumentará mais de 2500 milhões
de pessoas, o peso demográfico da Europa cairá acentuadamente.
Actualmente, a UE25 representa 7,1% da população do mundo e descerá
para 4,8% a meio do século. Isto tem consequências sérias face aos
vizinhos. Os Estados Unidos, ganhando 112 milhões de pessoas no
período, mas caindo ligeiramente em percentagem de 4,7 para 4,6%,
vão, apesar disso, ultrapassar em importância os 15 países da
recente União Europeia (UE15), reduzidos dos 6% do mundo hoje a 4,1%
em 2050. O mundo árabe, que representa agora só 4,9%, irá
ultrapassar não só a UE15 mas também a UE25, atingindo 7,1% do
planeta daqui a 46 anos.
O problema é elementar: os europeus desistiram de ter filhos. Isso,
só por si, condena-os à irrelevância. Para mais, porque a reduzida
dinâmica de população que ainda temos vem sobretudo dos imigrantes.
Assim, esta Europa será, não só muito mais pequena, mas
crescentemente árabe, africana e oriental. Os europeus do futuro
serão decididamente estranhos à tradicional cultura europeia.
Goste-se ou não, assim será.
O facto quantitativo é agravado pela confusão ideológica e
estratégica de que padecem os europeus. A União parece ser a única
zona do mundo que não sabe o que quer, ou que quer coisas
inconsistentes.
Enquanto os outros blocos lutam por afirmação civilizacional,
desenvolvimento produtivo e influência político-militar, a Europa
está apostada em debates conceptuais e abstractos que, mesmo se
resolvidos, só confirmarão o crepúsculo.
A cultura europeia é a única que renegou as suas origens
civilizacionais e se esgota em controvérsias axiais. O que excita os
europeus é discutir a liberdade do aborto, droga e tabaco, a redução
do horário de trabalho, a defesa do prazer livre e «famílias
alternativas», a ambiguidade nas alianças geostratégicas. Não admira
que daí resulte a estagnação, o desnorte, a corrupção. A
desorientação é a causa da referida queda demográfica e cultural.
Num mundo que será em breve muito diferente, com China, Índia e
Islão em florescente influência político-económica, não valerá a
pena perder tempo com a velha, gorda e pequena Europa, cuja
relevância apela a hegemonias extintas.
Estes sintomas, já os vimos em tantas civilizações e impérios que
não são difíceis de diagnosticar. Quem envereda por esta estrada
encontra no termo a triste vacuidade. O processo ainda será longo,
atribulado, doloroso. Mas, se os europeus não mudarem drasticamente
o rumo, serão extintos. O Papa explicou a razão em 1996: «Um povo
que mata os seus filhos não tem futuro.»
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
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