HÁ MOMENTOS ASSIM! Os problemas reais são
conhecidos, mas sucedem-se as falsas
soluções. Ou antes: as propostas
apresentadas à população, assim como os
combates políticos mais visíveis, não se
dirigem à resolução daqueles problemas.
Propostas e soluções têm um efeito de
ocultação de consequências clássicas: no dia
seguinte, dias depois, passado algum tempo,
resolvidas as lutas aparentemente decisivas,
vemos, estremunhados ou perplexos, que os
problemas que nos afligem se mantém
intactos, ou, pior ainda, agravados. Se
olharmos bem em volta, teremos a percepção
clara de que um écran tapa a vida.
A EUROPA CRESCE MAIS DO QUE Portugal. Até
2008, pelo menos, o país continuará a
distanciar-se de todos quantos fazem parte
da zona Euro. A Espanha cresce muito mais do
que nós. Contam-se já por muitas dezenas de
milhares os trabalhadores que se mudaram
para a vizinha ou que para lá se deslocam
todos os dias. Como as viagens e a mudança
de ares sempre fizeram bem, daí não viria
mal ao mundo. Só que isso traduz facto bem
mais grave: Portugal perde, ao mesmo tempo,
emprego e competitividade, com efeitos
cumulativos.
O investimento não aumenta ou diminui mesmo.
Com excepção de alguns sectores ou algumas
empresas que souberam prever, a indústria
estagna, fecha as portas e entra numa deriva
ameaçadora. O turismo está a perder
qualidade e, brevemente, clientes e valor. A
agricultura e as pescas não encontram novo
rumo nem orientação e, em conjunto, talvez
não satisfaça sequer um terço das
necessidades alimentares do país. Os défices
da balança comercial aumentam e não se
detecta ou pressente uma única hipótese de
os atenuar.
O Estado social está esganado, sem recursos,
com dívidas e atrasos, com velhos a mais e
activos a menos. As prestações pagas à
maioria dos trabalhadores e dos idosos são
miseráveis. Algumas tentativas felizes e
enérgicas, por enquanto apenas anunciadas,
de reorganizar a educação e a saúde não
bastam para reordenar o "modelo português"
de protecção social a que não faltam, em
doses abundantes, a irracionalidade, o
desperdício e a fraude.
A justiça continua, como todos os dias se
vê, em crise permanente e larvar, agravada
agora pela luta ácida entre todos os
protagonistas do sistema e pelo silêncio do
asténico Parlamento. A corrupção, a
irregularidade financeira e a promiscuidade
permanecem viçosas na administração, nas
autarquias, no desporto e nas zonas de
contacto entre o Estado e a economia, sem
que alguém, com poder e eficiência, seja
capaz de iniciar uma inversão punitiva de
rumo.
É PERANTE ISTO QUE SURGEM AS falsas soluções
e os falsos enredos. As eleições
presidenciais não incluem uma só resposta
para as questões nacionais, de superfície ou
de profundidade. Estas eleições
transformaram-se numa espécie de desafio
desportivo em que se agitam camisolas e
abanam vaidades, mas de cujo desfecho nada
de importante decorrerá. Como estão
recheadas de emoções fáceis, têm o condão de
parecer importantes, apesar de haver cada
vez mais pessoas que as ignoram. O pior,
todavia, é o efeito de ocultação que
produzem sobre o país. Com o seu estatuto
majestático, oferecem aos candidatos a
oportunidade de nada dizer de relevante, de
não assumirem compromissos e de não se
responsabilizarem. "São assuntos de
governo", dizem com desfaçatez e alívio.
Cavaco fala de menos e desta maneira foge
dos assuntos complexos. Alegre vai falando
de questões árduas, mas fala ao lado. Soares
fala de mais e assim evita os temas
difíceis.
OS PRINCIPAIS CANDIDATOS À presidência, que
ainda não revelaram o que verdadeiramente
querem fazer, garantem estabilidade política
e boas relações com os governos. Não se
cansam de o repetir. Não obstante se ter
percebido, há muito, que a estabilidade
política do país não depende do Presidente.
Até certo ponto, nem sequer das maiorias. Na
verdade, em coligação ou com maioria
absoluta, os números não enganam. Em poucos
anos, uma ou duas dezenas de ministros das
finanças, da educação, do trabalho, da saúde
e das obras públicas mostram que a falta de
constância e persistência decorre
directamente das mudanças bruscas de
políticas, incluindo dentro do mesmo partido
ou governo. Desta vez, todavia, há vingança
no ar. Apesar das cândidas promessas dos
candidatos, já está criado, na população, um
sentimento indelével: quem quer que ganhe
prepara-se para fazer sangue. Os eleitores
que têm uma preferência marcada só esperam
uma coisa: que o "seu" presidente "lhes" dê
uma lição. Que Cavaco, Alegre ou Soares, uma
vez eleito o vencedor, faça o que dele se
espere, corrija, despeça ou substituta o
governo.
TORNANDO TUDO MAIS COMPLIcado, Jorge Sampaio
parece ter decidido fazer dos seus últimos
meses um balanço de tudo quanto aprendeu
durante os seus dois mandatos. Tem-se aliás
a impressão de que os dez anos lhe serviram
para estudar, donde o seu habitual recato.
Mas agora, que sabe e tudo viu, abriu o
livro. Percorre o país e, ao deixar cartões
de despedida nos concelhos e nas
instituições, desanca alguém ou toda a
gente. Nenhum sector escapa. E traça um
panorama da situação deveras sombrio. Na
verdade, está a deixar recados ao seu
sucessor, a dizer-lhe o que está mal e
necessita de reparação. Estranho é que
pareça começar agora o seu primeiro mandato!
DO LADO DO GOVERNO, ALGO DE parecido com a
ocultação presidencial. O "plano
tecnológico" não inclui uma só solução para
os problemas nacionais, imediatos ou de
estrutura. Vai custar caro. Vai distribuir
dinheiros avulso. Vai tentar muita gente,
projectos e empresas. Vai-se enredar em
formulários e desígnios etéreos. Vai obrigar
as empresas e as instituições a adaptarem-se
a esquemas abstractos e formais, perto dos
ideais dos peritos apátridas, tal como já
aconteceu tantas vezes com os programas
europeus de apoio e incentivo à indústria, à
agricultura, às universidades ou aos
projectos tecnológicos. Vai criar espuma
vistosa, mas não vai consolidar nada. Ou
pouco. E fica o resultado desejado, o
"projecto mobilizador" que encobre as
mazelas.
AS NOVAS OBSESSÕES DE SÓCRAtes, a OTA e o
TGV, não são solução para os nossos
problemas. Vão custar caro de mais. Não vai
haver dinheiro que chegue. Vão agravar as
balanças externas, assim como a dívida. Não
vão criar emprego sustentado. Não vão
transformar as empresas portuguesas. Vão
trazer mais empresas estrangeiras, melhor
preparadas, que se irão embora quando o
entenderem. Vão criar colossais défices de
exploração. Vão fazer clientes, agradar a
meia dúzia de construtores, fomentar
"nichos" de mais especulação imobiliária,
aliciar um ou outro banco, dar trabalho e
consultores, distribuir dinheiros e criar
uma "mística" idiota de modernidade. Mas
fica o "écran" de neblina sobre o real.
A REDUÇÃO DE FÉRIAS JUDICIAIS não é a
solução para o problema da justiça. Rompante
emotivo do Primeiro-ministro, cada vez mais
especialista em demagogia, a ideia serve
para acicatar os ânimos populares contra
inimigos poderosos, tal como fará contra
advogados, professores, engenheiros,
médicos, notários, farmacêuticos, bombeiros,
militares e polícias. Se, as esses ímpetos,
correspondesse uma acção enérgica e
reformadora, consistente e durável, as
emoções corporativas não seriam de molde a
convencer ninguém. Mas, até à data, ainda
não se percebeu essa acção. Fica o efeito de
ocultação.
E FICA-NOS, A TODOS, A SENSAÇÃO da
inutilidade democrática e da vacuidade da
eleição presidencial. É pena. Porque
precisamos, mais do que nunca, de conhecer o
estado em que nos encontramos. Isto é, se
queremos evitar o desastre.