Público
- 01 Nov 07
Aborto: ética e lei
António Bagão Félix
A licitude penal não acarreta necessariamente a sua
licitude perante a consciência
1. Há uns dias, soubemos por uma
nota do Ministério da Saúde que o ministro homologou
um parecer solicitado à Procuradoria-Geral da
República sobre a conformidade do Código
Deontológico dos médicos com a Lei 16/2007, que
alterou o artigo 142 do Código Penal, introduzindo
no sistema jurídico português uma nova causa de
isenção da responsabilidade criminal pela prática do
aborto.
Ficámos também a saber que o ministro da Saúde
voltou a pedir à Ordem dos Médicos que altere com
urgência o seu Código Deontológico, adaptando-o à
actual legislação penal, ficando a aguardar, durante
30 dias, sobre "diligências tomadas para a reposição
da legalidade"!
Esta atitude do Governo enquadra-se na já compulsiva
e obsessiva prática do "quero, posso e mando" ao
atropelo das regras e valores que todos esperaríamos
de um executivo democrático.
Uma intromissão intolerável e que não augura nada de
bom!
É habitual a confusão entre a lei e a ética. Mas o
que é certo (e elementar) é que nem tudo o que é
legal tem automaticamente o estatuto de conformidade
ética e nem todo o enquadramento ético é regulado
pela lei.
Conduzir pela direita é uma norma legal, mas nada
contém de relevância ética. E, ao contrário, há
valores éticos na conduta humana que a lei jamais
pode regular ou que simplesmente omite. Por exemplo,
o exercício de certas funções políticas ou públicas
pode não implicar legalmente determinadas
incompatibilidades para cargos futuros, mas exigir
que eticamente essas restrições se imponham.
Poderemos encontrar muitos (bons e maus) exemplos
desta situação.
2. Dá que pensar que este Governo,
e, em particular, o ministro da Saúde, sempre tão
solícito quando se trata de liberalizar a prestação
dos cuidados de saúde, exonerando até o Estado de
exercer as suas responsabilidades, apareça com uma
face ultra-intervencionista, impondo abusiva e
intoleravelmente alterações às normas de conduta,
aos códigos deontológicos e éticos.
Esta exigência de revisão do Código Deontológico dos
Médicos é inaceitável e prepotente e faz lembrar até
o que se passou em regimes ditatoriais em que se
exigia a uma determinada classe actuar contra as
mais elementares regras da sua conduta profissional.
Uma coisa é o cumprimento da lei, ainda que dela se
possa discordar. Está fora de causa. Outra é a
imposição num código ético (que está muito para além
da conjuntura das leis) de uma norma violadora de um
juramento profissional que tem 2500 anos.
3. Mal vai a sociedade quando a
moral se esgota na lei. A licitude penal não
acarreta necessariamente a sua licitude perante a
consciência. A escravatura foi, durante muito tempo,
legal, mas jamais se tornou eticamente aceitável. E
não é por haver pena de morte nalguns países que
neles se impôs no código ético dos seus médicos a
obrigação de colaborar na agonia letal dos
condenados.
Pergunto até porque não age o Governo tirando
consequências da descriminalização do consumo de
drogas, obrigando os médicos a explicitar no seu
código de Conduta que a sua "prescrição" não será
condenável.
Nem o antigo regime se atreveu a impor num código
dos jornalistas a aceitação (deontológica) da
censura prévia, prática que, à face das normas então
vigentes, era legal!
4. Justamente porque a conformidade
da lei com a ética nem sempre é total é que nos
Estados de Direito se consagrou a figura da objecção
de consciência. Será que o Governo quer transformar
a dita objecção numa violação da liberdade
individual?
Aliás, o ministério detesta tanto esta figura que,
no caso da prática de abortos, até impediu os
objectores de participar na informação médica que
precede a realização do acto, não fosse o diabo
tecê-las e prejudicar tão "nobre e ético" serviço!
Pasme-se: o ministro da Saúde quer que uma nobre
profissão que serve para curar, cuidar e lutar pela
vida das pessoas "certifique" pela via deontológica
que a barreira - a barreira da vida - seja quebrada.
Quando se exige, num código ético dos médicos, que a
morte como acto médico seja uma solução, sabe-se que
se entra num pântano de onde já não se sai. Basta
saber História e ter memória.
5. Estamos a ser invadidos por uma
onda de relativismo sem limites, onde não há
fronteiras entre o bem e o mal. Pergunto: onde vai
parar esta onda que quer impor, neste caso, à classe
médica o "virtuosismo profissional" de fazer
abortos?
A vida não se relativiza, nem é moeda de troca. É
este cretino relativismo que quase anestesia os
comportamentos letais, porque retira valor absoluto
à vida e despreza os que não têm voz. É este
relativismo desvertebrado que igualiza, moralmente,
fins e meios.
É o tempo governamental do vale tudo. Da dureza
prepotente para uns e da moleza inebriante para
outros.
Se um dia o Código Deontológico dos Médicos aceitar
explicitamente a morte como uma solução, como
poderemos acreditar na salvaguarda de valores
perenes e inegociáveis da civilização, entre os
quais e acima de todos está o (mais) absoluto: o
respeito pela Vida?