Público
- 02 Nov 07
O leão e o sendeiro
José Miguel Júdice
Por causa das guerras educativas agravam-se as
desigualdades sociais em função de se frequentar ou
não colégios privados
Um dos dramas que define melhor a realidade política
portuguesa é que, muitas vezes, o debate que se
estrutura é feito de acrimónia e acusações mútuas,
cada um dos contendores acusando o outro e sobre o
mesmo assunto das piores falhas e erros ... e tendo
ambos razão. O famigerado Estatuto do Aluno é um
caso exemplar para o demonstrar.
A questão nuclear é simples de apresentar. Alunos
(muitos? Alguns?), nos vários graus de ensino,
faltam muito às aulas e/ou não têm aproveitamento,
passando apesar disso de ano e acumulando desse modo
iliteracia e incapacidades de forma exponencial, e
contribuindo para nivelar por baixo o ensino em
Portugal. Confrontados com este problema, os
sucessivos governos - do PSD, do PS, do PSD e do PS
- alternam soluções há mais de 20 anos, só
aparentemente diversas e manifestamente não opostas:
de uma forma ou de outra (ou porque os pais
justificam todas as faltas, ou porque as criancinhas
sofrem de problemas psicológicos - mas depois da
belíssima canção de Carlos Tê-Rui Veloso quem é
capaz de dizer que há adolescentes sem problemas? -,
ou porque se trabalha apenas para as estatísticas,
ou porque serão feitas provas de recuperação, ou
seja pelo que os teóricos da pedagogia moderna
consigam inventar) os estudantes não são obrigados a
criar hábitos de trabalho e de disciplina, baldam-se
às aulas (como eu o fazia até ao limite a partir do
qual reprovava...), não estudam, sabem que nunca
chumbam, pois não têm exames, e não duvidam que lhes
basta entrar na cadeia de montagem aos 6 anos para
chegar à universidade.
Por isso é insuportável ver os partidos de governo -
sem vergonha nem moral - a acusarem-se mutuamente
como se estivessem inocentes e como se, no fundo,
não comungassem todos do mesmo absurdo e criminoso
paradigma pedagógico: como não há coragem de
enfrentar as causas do abandono escolar e o poderoso
lobby dos sindicatos de professores, como no fundo
não percebem o mundo em que vivemos e a concorrência
feroz que o caracteriza, como raciocinam com a
lógica dos empregos garantidos para a vida em
sociedades paradas no tempo, a solução é assegurar
de forma administrativa que todos progridem na
escolaridade, mesmo sem aprenderem realmente a ler,
escrever e contar.
O resultado desta atitude é a acentuação das
desigualdades sociais em função da capacidade que
tenham ou não as famílias para colocar os filhos em
colégios particulares ou para os auxiliar com
explicações. O regime saído do 25 de Abril - e que
muito justamente colocou a igualdade de
oportunidades e a democratização do ensino na lista
de prioridades absolutas - está a construir e a
reforçar todos os anos uma sociedade cada vez mais
injusta, cada vez mais dualista, cada vez mais
estruturada na diminuição da capilaridade social. E
isto, além de inadmissível socialmente, é
economicamente terrível, pois priva Portugal da
dinâmica histórica dos que pelo estudo e pelo
trabalho árduo conseguem libertar-se de aparentes
destinos de carências e provocam as mudanças que os
já instalados abominam.
Não sou defensor de nenhuma forma de darwinismo
social e considero a escola pública - de que
beneficiei desde a 1ª classe da primária até à
licenciatura em Direito - um elemento essencial do
Estado de direito. Não desconheço a realidade
escolar do antigo regime - todos os meus colegas da
escola da Sé Velha, em Coimbra, com excepção de
menos de meia dúzia, foram trabalhar depois de fazer
o exame da 4ª classe - e a injustiça social em que
se baseava a qualidade do ensino público. Percebo
que a democratização do ensino leva consigo
implícita um abaixamento do nível médio, mas apesar
disso vale muito a pena apostar nela. Acho que o
abandono escolar é uma tragédia e que a
desestruturação de muitas famílias e a miséria de
tantas outras está no caminho crítico da péssima
realidade de parte relevante do ensino público. E
também concordo que se não pode pedir à escola que,
milagrosamente, corrija os males sociais e tenha
sucesso, quando tudo à volta se esboroa.
Só que a questão é outra e os partidos e os grupos
de pressão ligados ao ensino apenas tentam
sofismá-la. Uma cultura de laxismo, de facilitismo,
de falta de rigor, que recusa a disciplina e o
trabalho, que nivela por baixo, serve os mais
desfavorecidos ou prejudica-os? A percepção dos
jovens - baseada em factos inequívocos - de que não
precisam de se esforçar para passar de ano provoca
uma tendência crescente para a diminuição do
esforço, ou motiva os estudantes a trabalhar? No
mundo moderno basta a escolaridade formal para
progredir ou, pelo contrário, os hábitos de trabalho
e a aprendizagem real é que fazem a diferença?
Manter na escola os que não vão às aulas, não
estudam, não aprendem e que ninguém castiga é bom
para eles e para os que querem trabalhar? Para os
mais desfavorecidos (e com excepção do Euromilhões)
existe algum meio mais eficaz de progresso do que
uma escola pública de excelência?
Para tudo isto a ministra da Educação dá resposta
idênticas às que deram os seus equivalentes dos
governos do PSD. Mas ela faz parte de um governo de
esquerda, de um governo que tem de estar emocional e
culturalmente forjado na luta pela qualidade e rigor
do ensino público como instrumento de igualdade. Por
isso é inconcebível o que diz, o que justifica, o
que propõe. Como é incompreensível que se mantenha
no Governo. É que entradas de leão são, em regra,
previsíveis. Como, está a ver-se, são fáceis as
saídas de sendeiro.
Advogado