Público
- 06 Nov 07
O trabalho mais difícil vai ficar
por fazer?
José Manuel Fernandes
No dia em que se inicia a discussão
do Orçamento de 2008 é importante recordar que as
contas públicas melhoraram sobretudo porque os
portugueses pagam hoje mais impostos
Quando este Governo apresentou o seu
primeiro pacote de medidas para reduzir o défice
orçamental, escreveu-se neste espaço que a que seria
mais difícil de aplicar era a que previa a
reestruturação da administração pública. Porquê?
Porque reestruturar a máquina do Estado não se faz
por decreto-lei, nem afecta apenas os funcionários
públicos anónimos que viram o seu regime de pensões
ou os seus sistemas particulares de saúde afectados.
Reestruturar uma grande organização implica rever a
forma como esta funciona para cumprir cada um dos
seus objectivos, o que no caso português implicaria
desmontar os infinitos labirintos burocráticos e
administrativos que fazem os papéis (ou os
documentos electrónicos) circular entre inúmeros
departamentos, cada um deles cioso do seu poder, ou
poderzinho.
Disse-se que a solução estava no
PRACE e na reforma do regime de carreiras na
administração pública. A prova que não estava é por
demais evidente no Orçamento do Estado para 2008 que
a Assembleia começa hoje a analisar. Fundir serviços
ou direcções-gerais pode diminuir no papel o número
de quadros dirigentes, respectivas secretárias e
motoristas. Pode diminuir - não é garantido que
diminua. Basta olhar para o quadro de excedentários
e verificar que as diferentes "reestruturações" só
libertaram mil funcionários, uma gota de água em
mais de 700 mil.
Por que é que ainda aqui estamos,
metade da legislatura já decorrida? Porque é
possível congelar as admissões, as progressões na
carreiras e os aumentos, mas não se pode negociar
com os funcionários públicos a sua saída dos
quadros. Só passando à aposentação, onde continuarão
a ser pagos... pelo Orçamento.
Mas não só. Porque depois de
desenhar um novo organograma da administração
pública é necessário acabar com as redundâncias,
isto é, com as gorduras, pois estas geram
ineficiências e novas gorduras.
A isso chamávamos em Maio de 2005 "o
trabalho mais difícil". Em Novembro de 2007 é
necessário reconhecer que esse foi "o trabalho que
ficou por fazer". E que muito dificilmente será
feito daqui até ao final da legislatura.
Contudo, por que se deve retomar
esse tema agora que, asssumindo como rigorosos os
números da execução orçamental de 2007 e os das
previsões para 2008, Portugal se prepara para
alcançar a mítica meta dos três por cento de défice
um ano antes do previsto? Não será João Ferreira do
Amaral quem tem razão, quando escrevia recentemente,
no site da Sedes, que as notícias do défice têm "um
significado mais importante, porque correspondem ao
desmentido das teses dos "ultras" das reformas"?
Naturalmente que depende da forma
como olharmos para o peso e para as funções do
Estado. O que aconteceu nos últimos dois anos foi
que conseguimos reduzir substancialmente o valor do
défice, porque pagámos mais impostos. Indo directo
aos números: em 2005 a carga fiscal suportada pelos
portugueses corresponde a 35,1 por cento do PIB, em
2006 a 35,7e em 2007 deverá chegar aos 36,2 por
cento, percentagem que vai subir ainda mais em 2008.
Quer isto dizer que os funcionários públicos tiveram
de se sacrificar, que os contribuintes estão hoje
mais sobrecarregados, que toda a economia sofreu com
este aperto e, depois de tudo passado, de tudo
engolido com maior ou menor revolta, "o monstro" só
não cresceu ao ritmo a que estava a crescer porque
passou fome, não porque tivesse sido devidamente
medicamentado e tratado.
Se a isto acrescentarmos a
estagnação quase total do investimento público (o
que nem é uma má notícia, pois gastava-se muito e
mal) e a suspeita de que há muitos alçapões
disfarçados (é muito importante conhecer o que se
passa nos hospitais EP, nas Estradas de Portugal e
nos muitos institutos com autonomia financeira, para
além de se impor a clarificação de alguns acordos
com grandes empresas onde o Estado ainda tem uma
participação), fica-se com um amargo na boca.
Infelizmente a dúvida que hoje se
coloca na abertura de mais um debate orçamental não
é a de saber se podemos ou não diminuir já os
impostos ou daqui por ano, como tudo indica que o
Governo quererá fazer. A dúvida é a de saber se
ocorreu uma real consolidação orçamental, ou se
apertámos todos o cinto para ficarem demasiadas
coisas tão mal como estavam e, face à aproximação
das eleições, tudo piorar de novo. Até porque a
conjuntura económica internacional não ajuda.