Público
- 08 Nov 07
A educação e a pobreza: uma
proposta de solução
Fernando Adão da Fonseca
"Os pobres são menos inteligentes do
que os ricos?"
Muito se tem dito e escrito sobre os
rankings, mas quase sempre se tem fugido ao
essencial. Desde logo, interessa que não se confunda
avaliação de escolas com avaliação de alunos. Os
rankings avaliam os alunos, não avaliam as escolas.
Os rankings não são mais do que listas graduadas do
nível médio de conhecimentos dos alunos "à saída" do
ensino secundário, conforme medidos pelos exames.
Não avaliam as escolas directamente. Uma melhor
aproximação à qualidade de uma escola será a medida
da sua capacidade de ensinar, ou seja, a diferença
entre o nível dos seus alunos à entrada e à saída. O
que precisamos, portanto, é de mais informação e não
de menos.
Mas o que a todos deve preocupar da
leitura dos rankings é o grau de selectividade e
reprodução social do sistema de ensino português, um
drama que Helena Matos sintetiza de forma exemplar
na pergunta que serviu de título ao seu artigo no
PÚBLICO do passado dia 29 de Outubro: Os pobres são
menos inteligentes do que os ricos? A resposta é
dada no próprio texto, os filhos dos pobres não são
nem mais nem menos inteligentes que os filhos dos
ricos. Simplesmente em Portugal quem não pode fugir
às más escolas é quem não tem dinheiro nem
conhecimentos... para contornar o crivo das moradas
e dos horários... Em resumo, o problema está no
facto de os pobres serem obrigados a frequentar a
escola que o Estado indica e que mantém em
funcionamento mesmo quando todos - com rankings ou
sem eles - sabem que é má. O falhanço do ensino
público em Portugal tornou-se uma ratoeira contra os
mais pobres: a pobreza e o insucesso escolar
tornaram-se sinónimos.
A questão que se coloca é como sair
desta ratoeira contra os mais pobres gerada pelo
controlo centralizado e monolítico das escolas. Foi
o desejo de contribuir para a sua solução que levou
ao nascimento do Fórum Liberdade de Educação. O
caminho que defendemos, e que tem vindo a ser
seguido cada vez por mais países, passa
necessariamente (i) pela autonomia pedagógica,
administrativa e financeira das escolas e (ii) pela
liberdade de escolha da escola pelas famílias, no
quadro de uma efectiva liberdade de aprender e de
ensinar.
Esta via nada tem a ver com "a
concorrência entre o ensino público e o privado". Na
verdade, para nós - e estamos em crer para a maioria
das famílias portuguesas -, o facto de a escola ser
propriedade do Estado ou de privados é irrelevante,
desde que o ensino seja de qualidade e esta esteja
aberta a todos os cidadãos. O paralelismo com os
transportes públicos pode ajudar a clarificar este
novo conceito de "escola pública" que defendemos.
Transportes públicos são todos aqueles que estão
abertos a todos os cidadãos - independentemente de
serem detidos pelo Estado central, por uma câmara
municipal, por uma empresa ou por uma associação - e
cumprem certos requisitos de preço, segurança,
regularidade, etc. Da mesma forma, uma escola é
"pública" se cumprir os requisitos estabelecidos
pela lei -, designadamente em termos de
infra-estruturas, equipamentos, componente
obrigatória dos currículos - e estiver aberta a
todos os cidadãos, assegurando solidariamente com as
outras escolas a universalidade e a gratuitidade do
ensino. Assim se forma a rede de "serviço público de
educação".
Também não é sinónimo de
"financiamento das escolas privadas com os dinheiros
públicos" ou de "um subsídio às famílias mais
ricas". Garantir a gratuitidade do ensino significa
que as propinas, suportadas integralmente pelo
Estado, não podem ter valor superior ao que este
paga por aluno, em função do tipo e grau de ensino e
outros parâmetros julgados relevantes pela
sociedade. Note-se que, em rigor, o Estado não
financia as escolas da rede de "serviço público de
educação"; o Estado financia as famílias, para que
estas possam escolher entre as escolas dessa rede. O
mecanismo de financiamento propriamente dito pode
obedecer a diferentes soluções, conquanto a escolha
(ou não) de determinada escola por parte de uma
família se reflicta no montante recebido pela
escola. Dentro dos limites do possível, o Estado
deverá também financiar o transporte escolar para a
escola da preferência do aluno, se esta se situar a
uma distância que o exija. Em conjunto, estas
medidas garantem a todas as famílias o direito de
escolher a escola que melhor colabora com elas na
educação dos seus filhos.
Qualquer escola deve poder aderir a
esta rede de "serviço público de educação", desde
que respeite os requisitos em causa. Todas devem
gozar de ampla autonomia na escolha do projecto
educativo, na definição do calendário escolar e do
horário, na adaptação dos currículos e da pedagogia
às necessidades concretas de cada aluno, na selecção
e contratação dos professores e na gestão
administrativa e financeira. Ao Estado cumpre o
papel de juiz e de garante do acesso de todos os
cidadãos a uma educação de qualidade, competindo-lhe
apoiar as escolas em todas as suas dimensões
(pedagógica, administrativa e financeira) e avaliar
o contributo educativo dado a cada aluno, incluindo
através de exames nacionais e de avaliações
externas.
Sempre que numa determinada
vizinhança/zona não existam escolas suficientes para
garantir o acesso de todos os alunos nela
residentes, o Estado deverá lançar um concurso
público para a abertura de uma escola "pública", de
propriedade estatal ou privada, e celebração do
respectivo contrato-programa. Na mesma ordem de
ideias, mesmo que numa determinada vizinhança/zona
já existam outros estabelecimentos de ensino, o
Estado é obrigado a integrar na rede de "serviço
público de educação" qualquer nova escola que
satisfaça os requisitos desta pertença, mesmo que
isso possa desviar alunos das outras escolas e,
portanto, estas sintam os efeitos da concorrência
saudável. Só assim acabaremos com a ratoeira contra
os mais pobres.
Já as escolas que não cumpram estes
requisitos, ou seja, que não queiram pertencer à
rede de "serviço público de educação", mesmo que
sejam do Estado (o exemplo clássico é o do Colégio
Militar), não são escolas "públicas". São escolas
que se designam por "independentes". Prestam um
"serviço de educação", mas não um "serviço público
de educação". São, portanto, livres de cobrar as
propinas que desejarem e não estão obrigadas a
garantir, solidariamente com as outras escolas, o
acesso aos alunos da sua vizinhança.
Estes princípios organizacionais
garantem: (i) aos pais, envolvimento e participação
no processo educativo dos filhos; (ii) às escolas
"públicas", quer sejam de propriedade estatal ou de
propriedade privada, a capacidade de mobilização e
inovação, a iniciativa e energia de que necessitam
para desenvolver com qualidade os seus projectos
educativos e enfrentar com sucesso o desafio
educativo com que o país se depara. Assim haja
coragem para ultrapassar os preconceitos ideológicos
que teimam em minar o debate sobre as políticas
educativas em Portugal.
Presidente do Fórum Liberdade
Educação
(www.liberdade-educacao.org)