Diário Económico
- 13 Nov 07
O novo PREC
José Manuel Moreira
O mercado onde as pessoas mais
tendência têm para serem enganadas é o mercado
político.
Apesar das acusações de facilitismo
e até de ter sido criado para “melhorar as
estatísticas” do abandono escolar, retendo os alunos
a qualquer preço, o novo estatuto do aluno foi
aprovado. Há ainda a esperança no veto presidencial
para quem vê a prova de recuperação, entendida como
um recurso que substitui a frequência às aulas, como
um sinal errado para a sociedade. Mas, vendo bem, o
sinal está em linha com as novas políticas, entre as
quais a do aborto.
Quem falta às aulas passa assim a
ter direito a provas de recuperação até passar;
reprovar não é desejável e ser expulso ainda menos.
Tudo em nome de uma ideologia utilitarista cara ao
novo PREC (”Processo de Recuperação em Curso”), em
que “crime e castigo” se travestem em “crime,
recuperação e prémio”.
É graças a ela que na discussão
sobre o ‘ranking’ das escolas a eficiência ganha aos
valores educativos, descuidando os custos humanos
que a indisciplina e a má criação sempre promovem.
Os mentores da 1ª República pensavam
que ir à escola implicava formar bons cidadãos, daí
o ‘slogan’ “abram-se escolas, fechem-se cadeias”.
Cem anos depois, corremos o risco de acreditar no
contrário: “abram-se escolas e cadeias”.
Políticas em linha com as ensaiadas
em outras áreas, desde os prémios aos trabalhadores
que faltam menos ou às Entidades Públicas que
reduzam prazos de pagamentos até à penalização em
sede de IRS das pessoas casadas. Isto sem esquecer
os históricos programas de recuperação de empresas
em dificuldades.
Como se explica tanta simpatia dos
políticos com quem prevarica e usa de violência
sobre os outros? É verdade que certos traços de
“marginais” são assacados aos políticos: desde
mentir à dificuldade em distinguir entre faltas
justificadas e injustificadas. É verdade também que
reter as pessoas no sistema (da escola à segurança
social) lembra os sequestros, mas o Estado
social-democrata distingue-se pela legalidade dos
abusos e pela insistência em se considerar como um
pai (der Vater Staat) que oferece sempre novas
oportunidades, embora à custa do suor dos
contribuintes.
Como se explica a nossa
condescendência para com tanta recuperação e tantos
recuperados e regressados, de Portas a “Santanás”?
Miguel Beleza, quando uma vez o
elogiavam pelo seu invejável CV, que incluía o Banco
de Portugal e o Ministério das Finanças, logo
atalhou: isso não é CV, é cadastro.
Mas nesta aproximação entre o crime
público e a responsabilidade política talvez o
Ministério da Educação leve a perna aos outros. É
verdade que não falta quem acuse Ana Benavente dos
maiores crimes, mas é um exagero: as políticas de
educação foram um crime continuado sobre milhões de
vítimas. E que exige continuação. Daí a necessidade
de obrigar as pessoas a permanecer nos “sistemas”
ditos sociais, da saúde à segurança social, e o
receio de que as “vítimas” – ao darem-se conta da
proximidade entre estes sistemas e os esquemas em
pirâmide – tentem escapar ao logro e até votar com
os pés.
Acresce que os responsáveis pelo
PREC social-democrata, além de recursos legais, dão
mostras de um nível de desfaçatez que iguala os que,
depois de matarem os pais das crianças, as culpam
por serem órfãos. Só isso explica por que, além de
criarem os problemas, também se arrogam no direito
de os corrigir (vide lei das rendas) e até de
“capturar” instituições de financiamentos para
patrocínio de estudos de modo a esconder as razões
do problema – por exemplo, do insucesso escolar.
Isso explica a dificuldade em se
perceber, por exemplo, a responsabilidade dos
“Centros de Emprego” (e do IEFP) e da FCT no
agravamento dos problemas sociais e políticos ou em
entender como, depois de três anos de “recuperação”,
a suspeita “Constituição” passou a “Tratado” sem
referendo.
Frei Tomás é agora a referência dos
legionários de Bruxelas. Basta ver a sua preocupação
com as promessas que os iogurtes não podem cumprir.
Uma exigência de publicidade cientificamente
informada feita pelos mesmos que bem sabem que o
mercado onde as pessoas mais tendência têm para
serem enganadas é o mercado político.
Desconfio que só os belgas estão bem
informados. Por isso, à medida que a nomenclatura
europeia se alarga, a Bélgica vai-se desfazendo.
José Manuel Moreira, Professor
universitário e membro da Mont Pélerin Society