Com a ruína do
Ministério da Educação, já velha mas agora bem visível, muitos
pais preocupam-se com a formação dos seus filhos. É importante
que saibam que isso tem pouco a ver com a educação dos nossos
jovens. Essa continua a bom ritmo, e até é facilitada com este
pequeno atraso no início das aulas.
Os jovens portugueses aprendem intensamente as matérias que a
sociedade lhes quer ensinar. Eles sabem muito bem, por exemplo,
os cuidados a ter ao colocar uma bomba atómica numa cidade
populosa, a forma mais adequada de espancar um extraterrestre
num beco à noite e maneiras eficazes de passar droga ou enganar
a namorada sem ninguém dar por isso. É isto que a sociedade lhes
quer ensinar quando eles estão em condições de aprender, em
frente à televisão ou ao computador. A escola ensina, os
divertimentos arrastam.
A nossa sociedade desenvolveu extraordinários métodos
pedagógicos, instrumentos fantásticos de comunicação, técnicas
de persuasão ímpares, e usa-as intensamente para veicular os
conhecimentos que pretende.
Mas o que ela quer ensinar aos nossos filhos não é certamente
Matemática, Português, Biologia, Educação Física, Sexual ou
Musical. Se o quisesse, faria filmes divertidos sobre isso,
organizaria séries televisivas, criaria jogos de computador,
sites, grupos de rock, revistas e bandas desenhadas adequadas a
esse objectivo.
Aquilo que a sociedade actual quer ensinar aos nossos filhos é
muito diferente. Quer que aprendam a assassinar o presidente
americano ou a conquistar o mundo com uma arma diabólica. Quer
que sejam «bué da loucos» e saibam que o casamento é uma chatice
e a fornicação é sempre fixe em qualquer forma ou circunstância.
Quer amestrá-los a beber Coca-Cola e a gritarem em
histeria frente à Madonna. E, sobretudo, quer que consumam,
consumam, consumam sem custo e sem esforço.
Os jovens actuais são os filhos da primeira geração educada pela
televisão. Mas na idade deles os seus pais viam o «Rim-Tim-Tim»
e a «Lassie», o «Robin dos Bosques» e «Ivanhoe», «O Santo», «Bonanza»
e «Perry Mason». O que se vê hoje são «Morangos com Açúcar» e «Buffy,
a Caçadora de Vampiros», o indescritível «Dragonball» e o
mentecapto «Pokemon».
Nos filmes e séries actuais, os heróis não são melhores que
antes (é lá possível ser melhor que o Captain Kirk ou James Bond?!).
Os «maus» é que ficaram abomináveis e o sangue (frequentemente
verde) jorra muito mais.
A surpresa é que, com uma dieta intelectual tão brutal e boçal,
os nossos jovens não saiam monstruosos desadaptados sociais. O
espanto é que os adolescentes depois venham a ser pessoas
normais, que trabalham e decidem o seu futuro como nós, vivendo
num país mais próspero e feliz que o nosso. Este é o verdadeiro
mistério da educação.
A explicação do enigma é que, mais do que pela escola e
televisão, somos educados pela vida. E a vida tem muito pouco a
ver com aquilo que sociedade mediática nos impinge. Os jovens,
em geral, vivem em famílias normais, muito diferentes das
perversões parolas das telenovelas. Os namorados querem relações
estáveis e respeitosas, e não o fútil carrossel de sensações
apregoado por séries e revistas da moda. Os amigos não são
vampiros-robots, mas pessoas pacatas, que pretendem uma
vida alegre e sossegada.
Os nossos jovens vão resistir à imbecilidade da televisão, tal
como as escolas acabam por vencer a incompetência do ministério.
A vida vence a morte.