Diário de Notícias - 4 Out 04
 

O mistério da educação
João César das Neves

Com a ruína do Ministério da Educação, já velha mas agora bem visível, muitos pais preocupam-se com a formação dos seus filhos. É importante que saibam que isso tem pouco a ver com a educação dos nossos jovens. Essa continua a bom ritmo, e até é facilitada com este pequeno atraso no início das aulas.

Os jovens portugueses aprendem intensamente as matérias que a sociedade lhes quer ensinar. Eles sabem muito bem, por exemplo, os cuidados a ter ao colocar uma bomba atómica numa cidade populosa, a forma mais adequada de espancar um extraterrestre num beco à noite e maneiras eficazes de passar droga ou enganar a namorada sem ninguém dar por isso. É isto que a sociedade lhes quer ensinar quando eles estão em condições de aprender, em frente à televisão ou ao computador. A escola ensina, os divertimentos arrastam.

A nossa sociedade desenvolveu extraordinários métodos pedagógicos, instrumentos fantásticos de comunicação, técnicas de persuasão ímpares, e usa-as intensamente para veicular os conhecimentos que pretende.

Mas o que ela quer ensinar aos nossos filhos não é certamente Matemática, Português, Biologia, Educação Física, Sexual ou Musical. Se o quisesse, faria filmes divertidos sobre isso, organizaria séries televisivas, criaria jogos de computador, sites, grupos de rock, revistas e bandas desenhadas adequadas a esse objectivo.

Aquilo que a sociedade actual quer ensinar aos nossos filhos é muito diferente. Quer que aprendam a assassinar o presidente americano ou a conquistar o mundo com uma arma diabólica. Quer que sejam «bué da loucos» e saibam que o casamento é uma chatice e a fornicação é sempre fixe em qualquer forma ou circunstância. Quer amestrá-los a beber Coca-Cola e a gritarem em histeria frente à Madonna. E, sobretudo, quer que consumam, consumam, consumam sem custo e sem esforço.

Os jovens actuais são os filhos da primeira geração educada pela televisão. Mas na idade deles os seus pais viam o «Rim-Tim-Tim» e a «Lassie», o «Robin dos Bosques» e «Ivanhoe», «O Santo», «Bonanza» e «Perry Mason». O que se vê hoje são «Morangos com Açúcar» e «Buffy, a Caçadora de Vampiros», o indescritível «Dragonball» e o mentecapto «Pokemon».

Nos filmes e séries actuais, os heróis não são melhores que antes (é lá possível ser melhor que o Captain Kirk ou James Bond?!). Os «maus» é que ficaram abomináveis e o sangue (frequentemente verde) jorra muito mais.

A surpresa é que, com uma dieta intelectual tão brutal e boçal, os nossos jovens não saiam monstruosos desadaptados sociais. O espanto é que os adolescentes depois venham a ser pessoas normais, que trabalham e decidem o seu futuro como nós, vivendo num país mais próspero e feliz que o nosso. Este é o verdadeiro mistério da educação.

A explicação do enigma é que, mais do que pela escola e televisão, somos educados pela vida. E a vida tem muito pouco a ver com aquilo que sociedade mediática nos impinge. Os jovens, em geral, vivem em famílias normais, muito diferentes das perversões parolas das telenovelas. Os namorados querem relações estáveis e respeitosas, e não o fútil carrossel de sensações apregoado por séries e revistas da moda. Os amigos não são vampiros-robots, mas pessoas pacatas, que pretendem uma vida alegre e sossegada.

Os nossos jovens vão resistir à imbecilidade da televisão, tal como as escolas acabam por vencer a incompetência do ministério. A vida vence a morte.

naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

[anterior]