Diário de Notícias - 11 Out 04

A utilidade do PIB

Nos temas económicos os disparates abundam. A razão é que a Economia, como disse Milton Friedman, Nobel de 1976, «é uma disciplina fascinante. O que a faz mais fascinante é que os seus princípios fundamentais são tão simples que podem ser escritos numa página, que qualquer pessoa os pode entender, e que, no entanto, tão poucos o façam». Na semana passada, no anúncio do Nobel de 2004, contemplámos bem este paradoxo.

A base da Economia é que toda a actividade se destina ao bem-estar, à utilidade das pessoas. Mas em vez desta verdade evidente fala-se antes de propósitos como o emprego, PIB, investimento, produtividade ou exportações. Isto quando não se agarram a pormenores, como o investimento estrangeiro ou a competitividade da indústria.

Todos estes objectivos têm interesse, mas o seu valor existe apenas na medida em que reflectem o bem-estar das populações. Ora em Economia as relações nunca são rígidas, mecânicas e directas. Isto é uma das coisas que a distingue da Engenharia. Por isso se exige grande delicadeza e atenção para nunca perder de vista o motivo último, o bem-estar. Como o mostram exemplos recentes.

Portugal vive uma retoma económica. Vários comentadores, espiolhando os dados, encontraram um grave defeito: o crescimento é maior no consumo que no investimento ou nas exportações. A diferença é mínima, mas gerou preocupação. Porquê? O consumo é visto como comodismo e desperdício, sem dinamismo ou produtividade.

Mas para que é que queremos investimento e exportações, senão para suportar o consumo nacional? O factor económico mais ligado ao bem-estar é o consumo das famílias. Tudo o resto serve apenas para o financiar, sustentar, promover. Claro que numa trajectória de longo prazo, se o investimento e as exportações não subirem o consumo não se pode manter. Mas os dados de um trimestre não são «longo prazo». Essas considerações são tolas.

Outros exemplos mostram bem como o PIB, sendo uma medida preciosa, tem de ser usada com cautelas. Como a Economia ensina. Portugal decidiu há anos enveredar pelo gás natural. Essa opção teve ponderosas razões estruturais. Mas até a transição do antigo para o novo sistema gerou importante impacto positivo no PIB.

Houve muito trabalho, investimento e produção. Mas tudo isto foi feito para substituir equipamento e permitir apenas que as habitações mantivessem o abastecimento de gás que tinham antes.

Assim, este esforço, se fez crescer o emprego, o investimento e o PIB, reduziu seriamente o bem-estar das pessoas, pelas maçadas que causou sem vantagens imediatas. A decisão de mudar de gás foi como uma catástrofe súbita que tornasse obsoleto o equipamento doméstico. Mesmo que o objectivo último se justifique, ninguém pode ver a transição como crescimento económico.

Esta semana houve mais um exemplo. O Governo decretou «tolerância de ponto» no dia 4 de Outubro. Houve a habitual chuva de críticas, como haveria no caso contrário, e o jogo político prosperou. Mas neste caso o argumento foi a quebra no PIB, havendo até quem apresentasse estimativas percentuais. Só que a ordem ministerial competia apenas à função pública, cuja produção ninguém pode medir. Ninguém sabe quantas empresas privadas decidiram «fazer ponte por causa disso ou, sequer, quantas empresas fizeram ponte».

Será que os críticos sugerem acabar com os fins-de-semana para aumentar o PIB? Nos temas económicos os disparates abundam.

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