Nos temas económicos os
disparates abundam. A razão é que a Economia, como disse Milton
Friedman, Nobel de 1976, «é uma disciplina fascinante. O que a faz
mais fascinante é que os seus princípios fundamentais são tão
simples que podem ser escritos numa página, que qualquer pessoa os
pode entender, e que, no entanto, tão poucos o façam». Na semana
passada, no anúncio do Nobel de 2004, contemplámos bem este
paradoxo.
A base da Economia é que toda a actividade se destina ao bem-estar,
à utilidade das pessoas. Mas em vez desta verdade evidente fala-se
antes de propósitos como o emprego, PIB, investimento, produtividade
ou exportações. Isto quando não se agarram a pormenores, como o
investimento estrangeiro ou a competitividade da indústria.
Todos estes objectivos têm interesse, mas o seu valor existe apenas
na medida em que reflectem o bem-estar das populações. Ora em
Economia as relações nunca são rígidas, mecânicas e directas. Isto é
uma das coisas que a distingue da Engenharia. Por isso se exige
grande delicadeza e atenção para nunca perder de vista o motivo
último, o bem-estar. Como o mostram exemplos recentes.
Portugal vive uma retoma económica. Vários comentadores, espiolhando
os dados, encontraram um grave defeito: o crescimento é maior no
consumo que no investimento ou nas exportações. A diferença é
mínima, mas gerou preocupação. Porquê? O consumo é visto como
comodismo e desperdício, sem dinamismo ou produtividade.
Mas para que é que queremos investimento e exportações, senão para
suportar o consumo nacional? O factor económico mais ligado ao
bem-estar é o consumo das famílias. Tudo o resto serve apenas para o
financiar, sustentar, promover. Claro que numa trajectória de longo
prazo, se o investimento e as exportações não subirem o consumo não
se pode manter. Mas os dados de um trimestre não são «longo prazo».
Essas considerações são tolas.
Outros exemplos mostram bem como o PIB, sendo uma medida preciosa,
tem de ser usada com cautelas. Como a Economia ensina. Portugal
decidiu há anos enveredar pelo gás natural. Essa opção teve
ponderosas razões estruturais. Mas até a transição do antigo para o
novo sistema gerou importante impacto positivo no PIB.
Houve muito trabalho, investimento e produção. Mas tudo isto foi
feito para substituir equipamento e permitir apenas que as
habitações mantivessem o abastecimento de gás que tinham antes.
Assim, este esforço, se fez crescer o emprego, o investimento e o
PIB, reduziu seriamente o bem-estar das pessoas, pelas maçadas que
causou sem vantagens imediatas. A decisão de mudar de gás foi como
uma catástrofe súbita que tornasse obsoleto o equipamento doméstico.
Mesmo que o objectivo último se justifique, ninguém pode ver a
transição como crescimento económico.
Esta semana houve mais um exemplo. O Governo decretou «tolerância de
ponto» no dia 4 de Outubro. Houve a habitual chuva de críticas, como
haveria no caso contrário, e o jogo político prosperou. Mas neste
caso o argumento foi a quebra no PIB, havendo até quem apresentasse
estimativas percentuais. Só que a ordem ministerial competia apenas
à função pública, cuja produção ninguém pode medir. Ninguém sabe
quantas empresas privadas decidiram «fazer ponte por causa disso ou,
sequer, quantas empresas fizeram ponte».
Será que os críticos sugerem acabar com os fins-de-semana para
aumentar o PIB? Nos temas económicos os disparates abundam.