Portugal Diário - 15 Out 04

Estado sem respostas para famílias

Maria José Ritta diz que «as dificuldades crescem» e «não conseguimos agarrar o ritmo»

A mulher do Presidente da República, Maria José Ritta, considerou hoje que as respostas do Estado para os problemas das famílias portuguesas são insuficientes.

"As dificuldades crescem. Se calhar não conseguimos agarrar o ritmo. Os problemas complicam-se muito e as respostas que são dadas não são suficientes para o número e a gravidade dos problemas", disse na abertura do seminário "O que custa um filho", em Coimbra.

No entanto, Maria José Ritta reconheceu que têm surgido políticas sociais activas "que tentam contemplar situações mais difíceis", como os casos da criação do rendimento de inserção social ou dos centros de acolhimento para crianças e jovens vulneráveis.

Na perspectiva de Maria José Ritta, as famílias numerosas são as mais atingidas porque se deparam com uma "situação de depauperamento crescente", afectadas pelos constrangimentos do mercado de habitação, "sem medidas correctivas, que as empurram para as periferias" e espaços urbanos sem grandes condições.

"Uma nova criança custa uma nova casa, um acréscimo de salário, alguém que cuide dela, uma propina para a creche ou jardim-de- infância", observou.

Na opinião de Maria José Ritta, também a fiscalidade "penaliza as famílias legalmente constituídas".

As próprias escolas, por vezes, "estão mais preocupadas com as necessidades dos professores do que com as das crianças e famílias", afirmou.

Ao comparar a situação fiscal das famílias com a das empresas, a mulher do Presidente da República concluiu que o "Estado trata mal as famílias".

Se uma empregada doméstica é contratada por uma família, a que têm de recorrer cada vez mais pelos seus afazeres laborais, os encargos não poderão ser dedutíveis nos impostos, mas se é uma empresa a contrata-la já os pode deduzir.

E é muito por força da carga de trabalho, da ocupação laboral, que "a função parental está mais difícil", considerou.

Essas dificuldades - acrescentou - contribuem para a "tendência de colocar, de algum modo, na escola, e noutras entidades, algumas das responsabilidades e tarefas dos pais".

Na opinião de Maria José Ritta, "há aspectos de relacionamento com os filhos que são absolutamente indelegáveis noutras instituições, e os pais têm de as assumir".

"Hoje os filhos vivem em contextos sociais mais difíceis. Há muita solicitação lá fora e a educação das crianças não depende apenas dos pais. Há muitas influências do exterior, boas e más", observou.

O "reforço dos laços pais-filhos é um elemento sedimentador do desenvolvimento pessoal, e dos pilares que os hão-de moldar para a vida toda", acrescentou.

O ministro da Segurança Social, Fernando Negrão, a quem competia proferir hoje a conferência "Uma sociedade sem filhos", não compareceu por se encontrar na reunião do Conselho de Ministros.

O Seminário "o que custa um filho", organizado pelo Centro Integrado de Apoio Familiar de Coimbra", termina ao final da tarde de sábado. Para a sessão de encerramento foi convidado o primeiro- ministro, Santana Lopes.

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