| Diário de Notícias - 26 Out 04 Tentar perceber
Consolação
Francisco sarsfield cabral
Jornalista
«O país perdeu a inteligência e a consciência
moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada,
os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção
a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há
instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há
nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade
dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média
abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está
na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina
dormente. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão
e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu
todas as consciências. Diz-se por toda a parte: o país está
perdido!»
Isto foi escrito em 1871, por Eça de Queirós, no primeiro número d'As
Farpas. Reli este deprimente retrato da pátria na
recém-publicada edição d'As Farpas de Eça (Ed. Principia),
coordenada por Maria Filomena Mónica, historiadora que muito tem
feito por dar a conhecer, hoje, o escritor e o homem. O que mais
impressiona, claro, é a actualidade do diagnóstico: poderia ter sido
escrito agora. E na altura não havia televisão
Razão para um amargo pessimismo? Afinal, passado tanto tempo, depois
de tantas revoluções e de vários regimes políticos, no fundo
Portugal está na mesma. É verdade: mas também é certo que o País não
acabou e que, apesar de todos aqueles defeitos, continua a ter
alguns atractivos viver em Portugal. E há sempre a esperança de que,
um dia, sabe-se lá quando e como, os portugueses dêem a volta.
Outros conseguiram dá-la. Para já, consolemo-nos com a ideia de que
o problema português não é de hoje. Continuamos iguais a nós
próprios. A identidade nacional não está em risco.
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