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Jornal de Notícias -
27 Out 04
Cinco maternidades
podem fechar a curto prazo Guarda Lamego Covilhã Figueira da Foz
Aveiro Números
Leonel Castro
José Cunha, director clínico do Hospital da Guarda, defendeu a
necessidade de "diferenciar o que pretendemos daquilo que temos". "O
melhor para cada cidadão é ter tudo à porta de casa. Mas isso é um
sonho. A realidade é outra. E o que deve acontecer é ver que
recursos técnicos e humanos temos e pensar se não será melhor
abandonar o sonho a favor da realidade. É que toda a gente quer
sempre tudo e ninguém assume a dura realidade, por muito que custe",
afirmou José Cunha.
O director do Hospital Distrital de Lamego, Marques Luís, desconhece
o eventual encerramento da maternidade, mas contesta-a desde já.
"Prestamos um serviço de qualidade como as outras e servimos uma
vasta região do norte". Só admite que seja pelo número de partos,"
cercade 600 por ano", indica ao Jornal de Notícias. Marques Luís
antecipa o que poderá acontecer após o encerramento "Os partos vão
aumentar nas ambulâncias e nos domicilios. As grávidas ficarão a
mais de uma hora do local do parto e terão de percorrer estradas
sinuosas. Assim, teremos no nosso país grávidas de primeira e de
segunda". Marques Luís deixa uma sugestão ao Ministro da Saúde. "Em
vez de fechar a maternidades, o melhor era proporcionar o
intercâmbio entre os profissionais médicos do litoral e o interior
do País. Mais uma vez, as regiões do interior saem penalizadas deste
processo". De referir que afluem à Maternidade do Hospital de
Lamego, grávidas de grande parte dos concelhos do Douro Sul e
municípios vizinhos.
Miguel Branco, presidente da Administração do Hospital da Beira
Interior, diz que não comenta uma decisão que não é oficial". Porém,
diz que "há muitas questões em curso para melhorar a articulação
hospitalar na região e que não devem ser prejudicadas".
Relativamente à hipótese da criação de um serviço de obstetrícia
para servir toda a região da Beira Interior na Covilhã, diz conhecer
apenas "o que tem sido dito pela Comunicação Social".
O encerramento da maternidade (incluí serviço de obstetrícia e
ginecologia) do Hospital Distrital da Figueira da Foz (HDFF) "não
trará benefícios" para o concelho e para a sua população. "A
maternidade é um serviço viável e produtivo" disse José Couceiro,
director clínico do HDFF. "Não vejo benefícios para a população, nem
para a instituição". O número de partos por ano na unidade
figueirenses ronda os 700. "É um serviço produtivo. A resolução de
alguns problemas não devia passarpelo encerramento".
Empresa Municipal de Mobilidade vai gerir os transportes do concelho
915
partos foram
realizados, em 2003, na Maternidade Sousa Martins, na Guarda. Apesar
de tudo, um número que fica aquém dos 1500 partos/ano que o
relatório de Albino Aroso considera razoável.
625 bebés foram os
que nasceram, em 2003, no hospital da Figueira da Foz.
650
partos foram
realizados, o ano passado, na maternidade de Lamego. Unidade que, a
encerrar, obrigará a recorrer a Viseu.
As maternidades da Guarda, Castelo Branco, Covilhã, Figueira da Foz
e Lamego poderão encerrar as portas, apurou o JN, por não atingirem
o número de partos que a Comissão Nacional de Saúde Materno Infantil
(CNSMI) considera minimamente aceitável para manter em
funcionamento, com qualidade, uma unidade do género.
O bastonário da Ordem dos Médicos e os sindicatos da região Centro
corroboram a posição da CNSMI. Uma fonte da Administração Regional
de Saúde do Centro (ARSC) defende que "mais importante do que o
número de partos é a garantia de máxima qualidade no atendimento".
O bastonário Germano de Sousa afirmou categoricamente que "não se
justifica a continuidade das maternidades da Guarda e de Castelo
Branco" e defendeu que os médicos devem ser colocados nos mesmos
serviços (obstetrícia e ginecologia) do Hospital da
Covilhã. O representante dos médicos subscreve o relatório de Albino
Aroso, presidente da CNSMI, que prevê o encerramento das
maternidades que fiquem aquém dos 1500 partos por ano.
Germano de Sousa diz que, "como hospital universitário, a Covilhã
devia centralizar o serviço para ganhar dimensão".
Alcides Catré, do Sindicato Independente dos Médicos, e João
Rodrigues, do Sindicato dos Médicos da Zona Centro, dão razão ao
relatório de Albino Aroso, que vai ser entregue ao ministro da Saúde
nos próximos dias. Os sindicalistas acham que, "de uma vezpor todas,
deve imperar a razão dos técnicos sobre o coração dos políticos,
porque são os profissionais de saúde que sabem o que é melhor para
os utentes".
Os médicos temem, no entanto, que, "em vésperas de eleições
autárquicas, não haja coragem política para concretizar o
encerramento das maternidades que não se justifica estarem a
funcionar".
Uma fonte da ARSC afirmou, ao JN, desconhecer o relatório, uma vez
que ele ainda não chegou ao gabinete de Luís Filipe Pereira. Mas foi
adiantando que "a qualidade do serviço nunca pode ser posta em
causa".
Ora, é aí que reside, precisamente, o busílis do problema. Os
sindicatos - Alcides Catré, por exemplo, assim o diz - argumentam
que "a dispersão de meios técnicos e humanos é inimiga da
qualidade". E Germano de Sousa lembra, por outro lado, que "não há
obstetras para tanta maternidade".
"Sou a favor da concentração no caminho da qualidade. E acho que
esta política se deve estender a todo o país, inclusive noutras
áreas da medicina", argumentou o bastonário. Uma posição também aqui
corroborada pelos sindicatos do sector.
* com Luís Fonseca, Almeida Cardoso e Paulo Dâmaso
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