Correio da Manhã - 31 Out 04
Roberto Carneiro
A EDUCAÇÃO TEM O MOTOR GRIPADO

Texto de Hugo Franco

Roberto Carneiro gosta de usar imagens fortes quando fala da Educação, que compara a um motor em crise. Quanto aos ministros que o sucederam, estes são bombeiros, com mais fogos do que meios para os combater
Foi ministro da Educação de Cavaco Silva. E o primeiro a cumprir um mandato até ao fim. Chama-se Roberto Carneiro, é pai de nove filhos e um católico devoto. Quase vinte anos depois de reformar o ensino técnico e dar que falar com a famigerada PGA, o director do Observatório da Inovação e Conhecimento continua atento às atribulações da educação à portuguesa. Considera a colocação de professores uma catástrofe e pensa que este ciclo do sistema educativo está a chegar ao fim. Recusa, no entanto, apontar o dedo a alguém.

Os quatro anos passados no gabinete da 5 de Outubro foram aliciantes, mas Roberto Carneiro jura a pés juntos não ter saudades dos jogos de poder. O professor da Universidade Católica não se imagina no papel de ministro num país em que ele é sempre o último a saber dos problemas.

“Até dava uma mangueira e um machadinho a cada ministro para eles poderem apagar os fogos que são ateados todos os dias.”

Afirmou em 1987 ao Expresso, quando era Ministro da Educação: “A escola funciona mal, a qualidade é baixa, os professores estão desmotivados, os alunos não se levantam da cama com prazer para irem à escola.” Ainda subscreve a frase?

Continuo insatisfeito com o nosso sistema de ensino. 17 anos depois, dois terços da população continua a ter apenas nove anos de escolaridade. É manifestamente pouco.

Como se pode inverter esta tendência?

O legado é pesado. Portugal perdeu o comboio da educação há 200 anos desde os tempos de Marquês de Pombal. A inversão deste problema passa por estender a escolaridade básica a todos e investir na educação de adultos ou seja, na aprendizagem ao longo da vida. Se o conhecimento é o motor da sociedade a educação é o seu combustível.

Quanto tempo é que levará o sistema de ensino a atingir os padrões europeus?

No meu estudo intitulado ‘20 Anos para Recuperar 20 Décadas de Atraso’, concluí que é possível recuperar este atraso. Como? Reorganizando a oferta de formação e incentivando a população a aprender continuadamente.

Mas ainda há índicios preocupantes: por exemplo, 60 por cento dos portugueses estão satisfeitos com os conhecimentos que têm. É inadmissível.

Segundo esse estudo, em 2020 Portugal deverá ter formado cinco milhões de adultos e mais de metade dos alunos terão um curso superior. Não são metas demasiado ambiciosas?

São metas perfeitamente plausíveis. Hoje, por exemplo, 60 % dos alunos já chegam ao final do ensino secundário. Ainda não alcançámos os 90 % da República Checa ou da Eslováquia, mas estamos a melhorar. É preciso ter em conta que a educação não é uma fábrica de encher chouriços. É uma empresa muito pesada e não se pode de repente fazer um ‘face lifting’. É preciso visão estratégica e não apenas uma paixão conjuntural que não dá em nada.

Porque razão os estudantes portugueses continuam a vir nos últimos lugares quando comparados com os colegas do resto do mundo?

Fico muito preocupado com a passividade dos portugueses face aos resultados desses testes da OCDE. Tem de haver uma ambição nacional. Nos próximos dez anos, deveríamos querer atingir o meio da tabela internacional e quem sabe daqui a 20 estar o pelotão da frente. Não é inevitável estarmos no fim. Mas continuamos a ser um povo fatalista.

No ano passado as médias nacionais dos exames do 12.º ano a Matemática, Português e Física situaram-se entre os 5 e 7 valores. É um sinal de “mediocridade aflitiva”, como afirmou António Barreto?

A educação vai mal. E continua a não ser uma prioridade nacional.

Quando o insucesso escolar afecta um em cada três alunos, o que continua a falhar?

Alunos e professores estão deprimidos. É preciso animar as escolas e para isso é necessária uma liderança forte, carismática e visionária. Uma pessoa que arraste os outros e os tire da mediania. Se houver maior descentralização e envolvimento da comunidade na escolha dos seus líderes a escola funcionará melhor.

Como é que analisa o imbróglio da colocação de professores do início do ano lectivo?

O sistema de colocação de professores está falido. Eles andam numa grande dança nacional com resultados catastróficos.

É impensável pôr as vidas de cem mil professores nas mãos duma espécie de Matrix. Um supercomputador que decide o destino de 16 mil escolas, 150 mil professores, dois milhões de alunos, e um orçamento superior à arrecadação da receita de IRS, é algo que parece impossível.

Este desastre pode significar o fim de um ciclo?

A nossa máquina educativa é o expoente do que foi a sociedade industrial, de tarefas rotineiras e repetitivas: faz-me lembrar o filme de Charlie Chaplin, ‘Tempos Modernos’. E o ministro da Educação é uma espécie de relojoeiro que dá todos os dias à corda para a máquina funcionar. Isto é a antítese da sociedade de conhecimento, pluriforme e complexa.

Podem-se apontar culpados?

Não há culpados em especial. O motor é que gripou. No estrangeiro, ninguém compreende como se pôde ter dado esta catástrofe. Se ainda fosse numa ou outra escola

Como se pode resolver este problema?

Descentralizando. Se houver uma vaga para um professor de Física numa escola secundária de Angra do Heroísmo, deve abrir-se concurso público. Um júri da escola deverá depois avaliar qual dos professores a concorrer à vaga será o mais indicado. O sistema deve ser igual ao de uma empresa.

Onde deve ser dada a maior prioridade no ensino para o futuro?

No ensino básico. De pequenino é que se torce o pepino. Os professores universitários queixam-se da ignorância dos alunos que vêm do secundário. Os do secundário, criticam os alunos que vêm do básico. E assim por diante. São queixas justas. Os alunos sabem pouco ou estão mal preparados. Por isso, devemos começar pelos fundamentos: o pré-escolar e o primeiro ciclo. Se tivesse que escolher entre o investimento numa universidade ou a numa escola do 1.º ciclo, optava pela segunda.

As medidas dos últimos governos nesta área estão a ir no bom caminho?

Não. Há uma grande incompreensão das entidades políticas. O problema do ensino básico é que não tem voz, ao contrário do universitário. Há um problema de ‘lobby’.

“É preciso dar voz a quem não tem voz”, como dizia Vaclav Havel, político e dramaturgo checo. As escolas primárias estão pulverizadas pelo país, estão isoladas. O professor primário é um herói porque educa 20 crianças, de classes diferentes numa só sala de aula.

Pode haver mudanças em breve?

Sim. Uma medida importante é a de estender a Internet e a Banda Larga a todas as escolas do país já no próximo ano lectivo. Vamos ver se tem uma aplicação prática.

Defende que se fechem escolas primárias no interior com poucos alunos?

Sim. Não é adequado ter numa escola duas ou três crianças. O isolamento é o grande causador do insucesso escolar.

Mas não defendo que a criança tenha de viajar durante duas horas de autocarro para poder estudar. E seja obrigada a acordar às seis da manhã e regressar a casa às seis da tarde.

Defende a publicação de ‘rankings’ das instituições de ensino secundário?

Foi positivo porque veio agitar as águas mornas. O obscurantismo não ajuda a conhecer melhor o sistema. Mas de facto, um ‘ranking’ baseado nas notas do 12.º ano sabe a pouco. E é discriminatório porque não se tem em conta a base social. Vivemos numa época em que todos somos avaliados.

É a favor de se fecharem mais de 170 cursos do ensino superior?

A época do ‘numerus clausus’ acabou. Hoje há mais vagas do que alunos. Já lá vai o tempo em que havia 20 mil alunos para 120 mil vagas. Não se podem continuar a inventar cursos para a satisfação do ego de um determinado professor universitário. E que depois têm poucos alunos.

Desde o fim dos anos 80 que os confrontos entre polícias e estudantes universitários se repetem. É válida a luta contra as propinas?

Os jovens deveriam manifestarem por outras causas, mais alargadas. O movimento antipropinas é uma luta que não tem sentido.

Estes 400 mil alunos são uma elite privilegiada – têm de ter consciência que de fora do ensino superior estão outros 400 mil – e que vão ter acesso à melhor fatia do mercado de trabalho (pese embora existirem 40 mil licenciados desempregados). Mas mesmo um licenciado desempregado tem maior possibilidade de sucesso do que um desempregado sem o canudo.

Foi no seu mandato como ministro que se lançaram as raízes no ensino técnico e politécnico. Estamos hoje no bom caminho, numa altura em que se fala no Processo de Bolonha?

Não. Os Institutos Politécnicos ainda não atingiram a maioridade e continuam a querer ser iguais às universidades. É errado.

Estes Institutos foram criados para poder haver maior diversidade no ensino: formação em áreas tecnológicas, fora do Direito, da Medicina ou da Comunicação Social. Se o problema deles é o seu nome, então que se chamem universidades politécnicas. Não vejo nada contra

Os pais continuam a preferir que o seu filho seja doutor...

Concordo. Há um preconceito na sociedade portuguesa instalado há muitos anos.

Quando eu era ministro da Educação recebia no meu gabinete autarcas que defendiam a construção de escolas técnicas devido à falta de marceneiros e carpinteiros na sua terra. Eu perguntava-lhes se os seus filhos também iriam para lá estudar. Respondiam-me logo que não. Eles queriam uma escola técnica para os filhos dos outros.

Infelizmente, continua a associar-se o sucesso social ao canudo. Os politécnicos continuam a ser uma segunda escolha. Não há nada mais errado porque o nosso país tem uma grande falta de técnicos intermédios.

Quais foram as suas grandes bandeiras como ministro da Educação?

As escolas profissionais, que lancei em 1989 foram muito bem sucedidas. Basta observar o sucesso escolar e os níveis de emprego dos seus alunos, comparando com outras escolas generalistas. Mas também me orgulho do combate ao insucesso escolar, da reforma curricular, do novo sistema de gestão das escolas.

A famigerada PGA (Prova Geral de Acesso), pelo contrário, foi o grande tiro no pé.

Não se pode julgar a História à luz dos critérios actuais. Nem transportar coisas de há 20 anos para o presente sem contextualizá-las.

Hoje há uma maior compreensão da necessidade de qualquer aluno que ingressa no ensino superior em dominar a sua língua materna, a nível oral e escrito. Não concebo que um aluno de 17 anos atropele a língua portuguesa.

Foi o único ministro, para além de Marçal Grilo, a ir com um mandato até ao fim. Porque é que é tão difícil ser ministro da Educação em Portugal?

A vida quotidiana de um Ministro da Educação é inenarrável. Eu chegava a assinar em média entre 200 e 300 despachos por dia. Levava duas pastas cheias de papelada para casa. O grande problema é que somos massacrados por assuntos menores. E mesmo assim, tentei delegar tarefas ao máximo.

Esta máquina trituradora não se pode dever só à carga de trabalho e ao excessivo centralismo...

É verdade. A rotatividade dos ministros está relacionada com a grande exposição do cargo. A pressão sobre nós é demasiado grande.

Se um professor de uma escola perdida no interior der uma estalada num aluno, a comunicação social vem logo dizer que o ministro é que é responsável. É uma cultura centralista e que tritura qualquer ministro.

Mas é um lugar fantástico para quem tem uma noção de serviço, de missão. Há poucos lugares de responsabilidade pública que tragam uma densidade da dimensão humana como a Educação. Só talvez a saúde ou a segurança social. O que fazemos pode condenar, ou pelo contrário mobilizar, toda uma geração.

Tem saudades do poder?

Hoje era incapaz de governar um país em que o ministro é o último a saber. E é obrigado a dar uma resposta em cinco segundos na televisão ao problema mais complexo do país.

Os ministros de hoje andam a correr atrás dos fogos, como se fossem bombeiros. Se eu pudesse, dava um capacete e um machadinho a cada ministro para poderem apagar os fogos. Mas também vejo alguns ministros apenas preocupados em enviar ‘sound bytes’ para a comunicação social: é uma forma impura de governar. Esta junção da fome à vontade de comer é autofágica. É tudo devorado nesta voracidade.

Depois de tantos anos à frente de um Ministério ainda é um idealista?

Ainda acredito que as ideias podem mudar o mundo e não apenas a economia dos euros. Há falta de debate de ideias em Portugal.

É pai de nove filhos com idades muito diferentes. Há alguma fórmula para educar tanta criança?

Sim. Estar sempre disponível para elas. Escutá-las. A qualquer hora do dia ou da noite tenho tempo para eles. Se os pais se demitem da função de orientar os filhos estão a falhar a sua missão.

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