Público - 01 Out 06
Uma âncora para ajudar pais em luto
Da entreajuda entre pais desesperados com a morte
dos filhos nasceu,
há dez anos, uma associação
A morte inesperada de Paulo, 16
anos, e Mónica, 18, em Julho de 1992, levou ao
primeiro encontro. As mães dos dois adolescentes
reuniram-se, por iniciativa do médico João Sennfelt,
responsável pela saúde mental do concelho de Sintra.
Na partilha da dor e da saudade, acharam-se
cúmplices na procura de um sentido para o que
parecia ter perdido todo o sentido com a morte dos
seus filhos.
Vários outros encontros se seguiram. Pais em luto
passaram a palavra, arranjaram um telefone para
atendimento e da entreajuda nasceu uma associação: A
Nossa Âncora.
Dez anos depois, há 15 grupos de entreajuda com pais
que se debatem com o sofrimento de terem perdido os
filhos. Um telefone que recebe cerca de 30 chamadas
por dia, entre familiares e profissionais de saúde.
A sede, em Sintra, em espaço cedido pela câmara, é
mantida com o pouco dinheiro das quotas e dos
donativos.
As estatísticas dizem que, em Portugal, morrem todos
os anos cerca de cinco mil pessoas entre os 0 e os
30 anos. Emília Agostinho perdeu o filho e o marido
num brutal acidente de viação, há 20 anos. Hoje, é
no trabalho que desenvolve na direcção de A Nossa
Âncora e no apoio que presta aos pais que encontra a
energia para lidar com a sua perda. É ela que atende
os telefonemas tristes, muitas vezes durante a noite
e ao fim-de-semana. Mas isso não a incomoda. "É
gratificante", diz.
O objectivo principal da associação é ajudar os pais
em luto, para entenderem "a sua dor incontornável,
para que não se fechem em si mesmos, envoltos na sua
revolta, e encontrem novos estímulos de vida". E
para que "sintam que não sofrem sozinhos, que não
foram esquecidos nem são diferentes dos outros".
"Fazer o seu luto quer dizer, literalmente, passar
através da sua dor", explica o texto na página
online da associação, salientando que o luto é um
acontecimento "normal da vida e não uma espécie de
doença".
Além do apoio directo aos pais, várias outras
actividades têm sido desenvolvidas, como a formação
de moderadores dos grupos, a angariação de fundos e
a cooperação com outras entidades. Na página da
associação são também realizados fóruns online que
proporcionam o contacto entre as pessoas que
passaram por experiências semelhantes de luto.
Também há blogues. "Estou órfã da minha filha",
escreve uma mãe angustiada. "As lágrimas saem em
catadupa. Não acabam. E eu só queria saber porquê,
para quê?" Pergunta: "Mas o que faço então com isto
que sinto, esta dor, esta saudade? O que faço?"
A dor também pode ser exteriorizada nos grupos de
entreajuda, "onde se partilha o sofrimento, [e]
partilha-se também a esperança". "Os pais têm
necessidade de ter um lugar onde, em segurança e com
confiança, possam abrir o seu coração e dizer o
"indizível", gritar se tiverem necessidade de o
fazer, sem que de imediato lhes seja administrado um
calmante." Para aprender a "aceitar a morte, viver o
luto, abraçar a vida". Paula Torres de Carvalho