Diário
de Notícias - 02 Out 06
Desemprego
alastra entre professores universitários
Sónia Morais Santos
Está a aumentar o número de professores
universitários no desemprego ou em situações
extremas (e ilegais) de precariedade. O Sindicato
Nacional do Ensino Superior (SNESup) calcula que,
desde Julho, mais de uma centena de docentes
universitários do superior público, com horários a
100% e contratos de exclusividade, tenham visto
rescindidos os seus contratos. Paulo Peixoto
acrescenta: "Se incluirmos os dados do superior
privado o número triplica."
Nos politécnicos, a situação é gritante: 75% do
pessoal docente não está integrado nos quadros das
instituições. Ou seja, três quartos dos professores
não estão vinculados à escola superior onde
leccionam. Um cenário agravado pelo facto de os
docentes universitários não terem direito a subsídio
de desemprego (ver texto em baixo).
São várias as razões apontadas pelos
estabelecimentos de ensino superior para a não
renovação dos contratos de muitos docentes: a
redução do número de alunos, a reorganização do
Ensino Superior imposta pelo Processo de Bolonha, e
também os cortes orçamentais de 6,2 por cento
previstos para 2007. Mas, para os sindicatos, muitas
destas justificações não convencem.
Paulo Peixoto, do SNESup, acredita haver um
aproveitamento de uma conjuntura de incerteza: "Os
responsáveis dos estabelecimentos não sabem de que
forma as mudanças vão afectá-los e tomam decisões
por antecipação. Além disso, não só aproveitam para
renegociar contratos, propondo piores condições,
como para pôr fora do sistema os docentes incómodos.
Tudo legitimado pelas mudanças no superior." Os
docentes, por seu turno, acabam por aceitar estas
"propostas desonestas", porque a opção é o
desemprego. Paulo Peixoto revela que até já há
professores a recibos verdes, situação que "além de
vergonhosa é ilegal".
A Federação Nacional dos Professores (Fenprof)
alerta para os mesmos perigos. Mário Carvalho,
dirigente desta estrutura, acusa alguns
estabelecimentos de ensino de estarem a "aligeirar a
carga" de forma "inaceitável". E concretiza: "Nos
politécnicos, os contratos de um ano que eram depois
renovados por biénios estão a ser substituídos por
contratos a cinco meses e até a dois!"
Luciano de Almeida, do Conselho Coordenador dos
Institutos Politécnicos (CCISP), considera
"escandalosa" a precariedade em que vive "o pessoal
docente e não docente nos politécnicos, onde apenas
15% têm estabilidade". Quanto ao cenário negro que
tem sido traçado, prefere esperar para ver: "Dizer
que da reorganização do superior vai resultar um
aumento dos despedimentos é ser pouco rigoroso.
Depende. Se houver a extinção de institutos, escolas
e universidades, há despedimentos. Mas se houver uma
fusão, não é necessário que isso aconteça."
Também José Lopes da Silva, presidente do Conselho
de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP),
não prevê que as mudanças no âmbito do Processo de
Bolonha sejam tão catastróficas como alguns
prognosticam: "O que vai é existir uma
racionalização de professores, a um nível mais
desejável."
O Ministério da Ciência e Tecnologia opta pelo
silêncio. Em Julho, Mariano Gago anunciou estar a
preparar um programa para a qualificação dos
docentes do ensino superior desempregados. Quanto ao
subsídio de desemprego, não estão previstas
alterações.