Diário de Notícias
- 06 Out 06
Políticos e
justiça unidos no combate à corrupção
Paula Sá
Corrupção. Foi a palavra central do primeiro
discurso do Presidente da República nas comemorações
do 5 de Outubro, que há 96 anos instaurou a
República. Cavaco Silva pediu o empenhamento de
todos os portugueses no combate à doença que mina a
democracia, e, em particular, aos detentores de
cargos públicos e poderes judiciais, para que travem
a batalha da moralização da vida pública, numa
lógica de reforço da ética republicana.
Junto à Câmara de Lisboa, local onde pela primeira
vez em 1910 foi içada a bandeira da República
Portuguesa, na Praça do Município, o Chefe do Estado
considerou a corrupção "claramente um comportamento
de excepção" entre os nossos políticos. Mas disse
também existirem "sinais" que obrigam a reflectir se
o fenómeno tem sido travado de forma eficaz, seja no
plano do dever e da responsabilidade, seja no plano
repressivo da perseguição policial. Ao lado, junto
dos deputados das vá- rias bancadas parlamentares, o
ainda procurador-geral da República, Souto Moura,
escutava-o atentamente.
A corrupção, segundo as palavras de Cavaco, faz ruir
os referenciais éticos dos cidadãos, aprofunda as
desigualdades existentes na sociedade e faz os
portugueses alhearem-se da gestão da vida pública.
Porque, su-blinhou, "entendem que a política é um
feudo de alguns, que a utilizam em proveito
próprio".
A este combate chamou todos os níveis do Estado, do
poder central às autarquias locais. A estas atri-
buiu grande importância, visto que os autarcas têm
especiais respon- sabilidades na restauração da
confiança dos cidadãos nas instituições.
A mesma responsabilidade atribuiu ao poder judicial,
que será sempre chamado a intervir junto dos que na
vida pública se revelarem sem moral. "É preciso que
o combate à corrupção seja assumido como um esforço
a que todos são chamados, nomeadamente pelo sistema
de justiça, cuja dignidade e credibilidade devem ser
reforçadas perante os portugueses."
Uma última palavra presidencial para a comunicação
social, formadora da opinião pública, e que por
isso, frisou, deveria renegar as formas
sensacionalistas ou populistas no tratamento da
informação.
O tema da corrupção começa a tornar-se um clássico
dos discursos presidenciais no dia da implantação da
República. Foi este também foi o tema central da
intervenção do antecessor, Jorge Sampaio, nas
celebrações do 5 de Outubro do ano passado. Na recta
final do seu mandato em Belém, Sampaio pediu a
regeneração da imagem dos partidos, através de um
combate eficaz aquele problema. Pediu, na altura,
"uma revisão criteriosa das leis anticorrupção".
Quem ontem se mostrou plenamente satisfeito perante
as palavras de Cavaco foi o socialista João Cravinho,
amigo de Sampaio. O deputado, que tem um "pacote"
legislativo anticorrupção à espera de debate no
Parlamento, considerou que o Presidente da República
deu "um grande estímulo" a este combate.
Novo figurino
Se o Chefe do Estado manteve a "tradição" do apelo à
ética republicana, o figurino da cerimónia oficial
alterou-se. Ao querer valorizar a data, que dentro
em pouco contabilizará os cem anos, Cavaco discursou
na Praça do Município, para ser ouvido directamente
pelos cidadãos. Alguns houve, na maioria idosos e
turistas, que se abrigaram à sombra do Tribunal da
Relação, ali ao lado da câmara, para o ouvir saudar
a democracia. E ainda houve um que ergueu a voz
assim que A Portuguesa, tocada pela banda da
GNR, encerrou a cerimónia: "Viva a República!"