Expresso online - 13 Out 06
Constitucionalidade da medida em causa
Taxas geram polémica legal
Cristina Bernardo Silva
O "pai" do Sistema Nacional de Saúde, António Arnaut,
defende que a taxa moderadora de internamento é
"inconstitucional". O
constitucionalista Jorge Miranda não concorda.
As taxas moderadoras no
internamento em hospitais públicos – que terão
um valor máximo de cinco euros por dia já a
partir de Janeiro – “não põem em causa o
princípio constitucional da tendencial
gratuitidade do Serviço Nacional de Saúde”,
diz o constitucionalista Jorge Miranda,
acrescentando que o valor “não é
desajustado, uma vez que não chega a ser o
pagamento total do custo do internamento”.
Mas esta opinião não é
partilhada pelo criador do Sistema Nacional de
Saúde (SNS), António Arnaut. Para o fundador do
Partido Socialista, “embora cinco euros
não sejam uma quantia muito elevada”, a
taxa é “inconstitucional” e
“uma pedra no orçamento de muitas
pessoas que não estarão isentas”. O
advogado lembra que a gratuitidade do SNS passou
a ser tendencial na segunda revisão
constitucional para permitir a introdução de
taxas moderadoras apenas como forma de evitar
abusos no acesso aos cuidados de saúde.
Antigo ministro dos Assuntos
Sociais, Arnaut salienta que a futura taxa de
utilização (também aplicável à cirurgia em
ambulatório, com um valor ainda desconhecido)
“é, na verdade, um co-financiamento do
utente que vai contra a Constituição e ofende o
princípio da solidariedade”. E diz
ainda estar “chocado” com o
facto de ser “um ministro do PS a atacar
esse princípio e a transformar uma lei de
inspiração socialista numa aberração lógica”.
Segundo o ex-governante – que
afirma estar convencido de que o
primeiro-ministro, José Sócrates, não deixará
que Correia de Campos “continue por
muito mais tempo à vara larga” – o SNS
“não pode distinguir entre pobres, ricos
e remediados”. “Isso faz-se no
sistema fiscal”, sustenta.
O “pai” do Serviço Nacional de Saúde vai ainda
mais longe, ao considerar que o ministro da
Saúde “é um tecnocrata e político de
direita sem sensibilidade social”, que
“está a alterar o paradigma do SNS e a
criar um outro tipo de sociedade”.
“É preciso cortar nos
excessos e não nas carências. Pode-se
desengordurar em muitos sítios, mas nunca indo
ao cerne do drama humano”, remata.
Também o dirigente da
Federação Nacional dos Médicos (Fnam) Mário
Jorge Neves discorda das novas taxas, que diz
serem “uma forma de financiar
directamente as contas da Saúde e de levar o SNS
à privatização”.
O dirigente sindical garante
que a ideia subjacente à cobrança das taxas é
“abrir a porta para, gradualmente,
escancará-la, permitindo a importação do modelo
norte-americano, no qual só quem tem um seguro
de saúde tem acesso à prestação de cuidados”.
Mário Jorge Neves exemplifica
com o Reino Unido, país que considera ser, na
Europa, “o grande balão de ensaio para
esta importação”.
Quanto à taxa de utilização
nas cirurgias em ambulatório o dirigente da Fnam
receia que possa levar os doentes a
“atrasar até ao limite” as operações.
“Uma hérnia que não é operada pode ficar
estrangulada, levando a uma cirurgia de urgência
e mesmo a um internamento”, o que pode
acabar por se revelar “ainda mais
dispendioso”, exemplifica.
Segundo o ministro da Saúde,
Correia de Campos, as taxas de utilização no
internamento vão atingir um valor máximo de
cinco euros por dia e não serão cobradas se o
período em que o doente estiver internado
ultrapassar 14 dias.
O governante admite que os
utentes não isentos que recebem menos de 500
euros por mês podem pagar menos do que os cinco
euros por dia, em caso de internamento num
hospital público.