Público - 14 Out 06
O banco dos que têm muito pouco ou quase nada
Pedro Ribeiro
O exemplo criado no Bangladesh por Yunus em 1976
expandiu-se a todo
o mundo: hoje beneficia 500 milhões de pessoas
Muhammad Yunus fundou o Grameen Bank numa aldeia do
Bangladesh, em 1976. A sua lógica era simples: quem
mais precisa de capital para mudar a sua vida são os
mais pobres. Mas os mais pobres não têm garantias
bancárias para oferecer. Por isso, os bancos não
lhes concedem empréstimos.
O Grameen mudou isso. O banco de Yunus passou a
conceder microcréditos - empréstimos de valor muito
reduzido - sem exigir garantias, nem a assinatura de
contratos formais.
Cada devedor inseria-se em pequenos grupos, que
geriam comunitariamente investimentos e relações com
o banco. Estes grupos eram compostos quase
exclusivamente por mulheres - que no Bangladesh
estavam, e ainda hoje estão, praticamente excluídas
do sistema bancário tradicional.
A filosofia do Grameen Bank tem muito a ver com o
princípio tradicional de "mais vale dar a cana que o
peixe". O surpreendente é que o banco teve enorme
sucesso - e que a sua taxa de créditos mal parados
(empréstimos que ficam por pagar) é muito inferior à
da banca tradicional.
"Se eu não pagar o meu empréstimo, não vou para a
cadeia", explicou Yunus numa entrevista ao PÚBLICO e
à Rádio Renascença em Janeiro. "Mas também não tenho
[acesso a mais financiamentos]. E vejo os meus
amigos a continuar a ter crédito e a fazer negócios,
e eu a atrasar-me."
O exemplo do Grameen Bank inspirou muitas outras
instituições a adoptar o microcrédito - a ONU fez de
2005 o "ano internacional do microcrédito". Segundo
um estudo do Banco Mundial, 500 milhões de pessoas
em todo o mundo beneficiaram directa ou
indirectamente deste tipo de empréstimos, sobretudo
na Ásia.
Hoje, o Grameen Bank tem muito mais actividades para
lá da concessão de crédito: tem seguros, dá bolsas,
gere projetos de telecomunicações e irrigação. O seu
programa de "senhoras do telemóvel" permitiu
introduzir telefones em centenas de milhares de
aldeias remotas.
O Grameen Bank tem detractores e inimigos. No
Bangladesh, fundamentalistas islâmicos atacaram
agências do Grameen; o mesmo sucedeu no Afeganistão
com instituições que procuravam estender
microcréditos a mulheres.
Mas o Nobel atribuído a Yunus é um reconhecimento
dos méritos do Grameen Bank. Yunus defende que o seu
exemplo é universal: "A minha opinião é que os seres
humanos são todos basicamente empreendedores. Esse
espírito não está limitado a um grupo de pessoas ou
a um grupo de países. É um fundamento do ser
humano."