Diário de Notícias - 20 Out 06
Interrupções
António José
Teixeira
Os portugueses andam atordoados com as perspectivas
do próximo ano. Da Segurança Social à administração
pública, da electricidade às portagens ou às taxas
moderadoras, anunciam-se tempos difíceis em nome do
designado "rigor orçamental". A proposta de
Orçamento do Estado foi o pontapé das más notícias
que se vão multiplicando todos os dias. Cortar,
acabar, pagar, aumentar, perder, baixar são os
verbos fortes da contabilidade nacional. O dedo está
apontado aos consumidores, alegados culpados de
excessos de consumo. Ciclicamente este é o fado
lusitano. Sabemos que o país não se auto-sustenta,
que precisamos de ser mais exigentes, eliminar
desperdícios, trabalhar melhor, racionalizar
processos produtivos. Sabemos tudo isto e,
aparentemente, concordamos com o sacrifício. Não
suspeitávamos era do volume da dose e seus
acrescentos diários. Muito menos de que o sacrifício
que nos espera pode ficar aquém do que seria
preciso. Bem podem o ministro Manuel Pinho e seus
ajudantes andar a sorrir optimismo e a proclamar o
triunfo das exportações e o fim da crise. A crise
está aí salpicada de múltiplos sentimentos de
injustiça. E é neste contexto que agora se agendou
um novo processo eleitoral.
A Assembleia da República aprovou um novo referendo
à despenalização da interrupção voluntária da
gravidez. A decisão respeita o compromisso assumido
pela maioria com o eleitorado e culmina um processo
político atabalhoado que poderia ter frustrado as
expectativas criadas. Qualquer que seja a nossa
opção, há muito que a sociedade portuguesa deveria
ter clarificado esta questão civilizacional. Os
sinais que se têm observado nas últimas semanas não
têm sido muito abonatórios para a mobilização
necessária e a serenidade do debate.
A teimosia dos que querem transformar a escolha num
duelo entre a selvajaria e a humanidade revela uma
insensibilidade perante o drama das consciências. De
um lado não estão os amantes da vida e do outro os
cultores da morte. Não é essa a opção com que iremos
ser confrontados. O que deve ser discutido com
elevação é a nossa concepção sobre a ilicitude, ou
não, de um comportamento limite numa circunstância
concreta. Vão ser muitas as forças políticas,
sociais e religiosas que vão radicalizar a campanha.
Receia-se que as histerias que já se insinuam só
afastem os eleitores do voto. E as notícias que
ontem acompanharam a decisão dos deputados não são
bom augúrio. As anunciadas clínicas, que podem
desbloquear a burocracia e a resistência à aplicação
da lei, aparecem sobretudo como centros de negócio
promissor... E esse é o pior contributo para a
lucidez do debate referendário. Já basta o aperto do
cinto.