Diário de Notícias - 20 Out 06
Prémio Nobel da
Paz
Maria José Nogueira
Pinto
De vez em quando, os portugueses sobressaltam-se com
a pobreza e a exclusão. Os pobres, tornados cada vez
mais abstractos em teorias, estudos, projectos e
discursos inoperantes, ganham forma e peso sempre
que algum organismo internacional nos envia os
nossos próprios indicadores. Péssimos, aliás. Mas
depois de alguns dias de parangonas mediáticas, com
o Governo "de serviço" à data, a querer esconder a
evidência quantificada, tudo é novamente remetido
para o limbo dos temas inquietantes e, por isso,
incómodos.
A nossa relação com a pobreza foi sempre má. Quando
eu era miúda, quem dava uma esmola fazia-a
acompanhar, quase sempre, por uma frase tão
enigmática quanto extraordinária: "Tenha lá
paciência!" Mais tarde, já com um modelo de política
pública, os pobres continuaram a ser "assistidos",
embora por profissionais pagos para o efeito,
através de prestações pecuniárias e, até hoje, a
componente de subsidiação mantém-se como a mais
estruturante do sistema.
Em Portugal, a pobreza e a exclusão não são vistas
como circunstâncias ultrapassáveis, do mesmo modo
que não se concede, em regra, aos pobres e aos
excluídos, qualquer benefício da dúvida quanto às
suas possibilidades de vencerem essa circunstância,
tornando-se parte da sua própria solução. Por isso,
nunca seguimos o sábio provérbio chinês que
aconselha a não dar só o peixe, mas a ensinar a
pescar.
A atribuição do Prémio Nobel da Paz a Muhammad Yunus
representa, do meu ponto de vista, um acto
civilizacional da maior importância, ao estabelecer
um nexo de causalidade entre a paz e o combate à
pobreza, entre o desenvolvimento e a equidade, entre
a igualdade de oportunidades e a dignidade, entre a
autonomização e a liberdade.
É este banqueiro dos pobres quem proclama com uma
"firme, profunda e apaixonada" convicção que
"podemos criar um mundo livre da pobreza". Foi das
palavras aos actos, sem atalhos, ao terreno mais
duro deste combate: aos mais pobres entre os pobres
de Bangladesh, ao grupo mais prisioneiro de
limitações culturais e materiais, como são as
mulheres num país maioritariamente muçulmano.
Este sonho visionário, 30 anos depois, assenta no
Grameen Bank que opera em 70 mil localidades, possui
2200 sucursais e conta com 6,6 milhões de
"clientes", todos pobres, 97% dos quais são
mulheres. Este banco teve sempre resultados
positivos, excepto em três ocasiões, a taxa de
incumprimento dos empréstimos é inferior a 1,5%, não
obstante ter eliminado a necessidade de avales, e o
seu pioneiro modelo de microcréditos é seguido em
mais de 80 países e abrange cem milhões de pessoas
em todo o mundo.
Há três anos, o banco criou um programa para os
mendigos com o espantoso nome de "empréstimos de
luta", que cobre hoje mais de 80 mil pessoas. Como
Yunus gosta de sublinhar, a pobreza não é gerada
pelos pobres, mas sim pelo sistema que construímos.
E a esmola, o assistencialismo imobilista não é
resposta para fazer face aos desequilíbrios entre
ricos e pobres a nível planetário.
Os aspectos mais relevantes desta aventura são, por
um lado, a confirmação de que os pobres têm tanta
energia e criatividade como qualquer outro ser
humano e se lhes for dada uma ferramenta farão o seu
caminho, por outro, as esmolas, na sua versão antiga
ou moderna, que limitam a iniciativa, desvalorizam a
auto- -estima e os acomodam à pobreza e ao estatuto
de "assistidos".
Este prémio distingue um banqueiro capaz de
alavancar uma megaoperação financeira no âmbito da
economia social, de combater a pobreza com eficácia
e sustentabilidade, criando uma ferramenta, os
microcréditos, "que liberta os sonhos das pessoas,
dá aos pobres dignidade e respeito e enche de
sentido as suas vidas".
Com a advertência de que o capitalismo, tal como é
concebido hoje, deve mudar, Yunnus desarma-nos
definitivamente, ao confessar que a maior lição
desta peregrinação revolucionária ao fundo da
pobreza foi esta: cada ser humano possui um
potencial ilimitado. A questão é que, quase sempre,
só arranhamos a superfície.